sexta-feira, 29 de agosto de 2014

REJEITAR A RELIGIÃO LAICA – O NEOLIBERALISMO






Adaptado de Vicenç Navarro [1]

Esta terceira recessão que se inicia, diferente das outras duas anteriores, está voltada para os países centrais da Zona Euro: Alemanha, França e Itália.

Não há dúvidas de que, quando for escrita a história da União Europeia e da Zona Euro, será mostrado até que ponto uma religião laica – o neoliberalismo – pode ser reproduzida apesar de toda a evidência empírica acumulada mostrando não apenas que tal religião estava equivocada, mas também o enorme prejuízo que ela está a causar nas classes populares dos países da União Europeia. A religião laica promove-se com um espírito apostólico, baseado numa fé impermeável à evidência científica, revelando claramente a sua grande falsidade. Actualmente, esta fé, reproduzida pela maioria dos órgãos de comunicação social, está anunciando que a Espanha, Portugal e a Zona Euro estão a recuperar, quando, na realidade, estão a entrar noutra recessão. Vejamos os dados:

Desde que, no ano de 2007, teve início a Grande Recessão, que para muitos países foi pior do que a Grande Depressão, houve, na Zona Euro, nada menos que duas recessões, consequência da aplicação das políticas neoliberais. A primeira ocorreu no período 2008-2009. Foi seguida de uma rapidíssima recuperação (com um crescimento económico da Zona Euro de somente 0,5% do PIB) no período 2009-2010, para cair novamente noutra recessão, que durou 18 meses e que anulou o escassíssimo crescimento que tinha acontecido na etapa de crescimento anterior. No ano de 2012, iniciou-se outra timidíssima recuperação com um crescimento de somente 0,2% do PIB, recuperação que está a ser novamente revertida, iniciando agora uma terceira recessão (o PIB da Zona do Euro caiu 0,2%), alcançando três recessões em cinco anos. Um recorde! Na realidade, a economia da Zona Euro nunca recuperou desde a queda de 2007, quando teve início a Grande Recessão. As pequeníssimas recuperações eram, mais do que tudo, pequenos saltos do fundo do abismo.

Estamos agora no início da terceira recessão.

O que é importante sublinhar é que esta terceira recessão que se inicia, diferentemente das outras duas anteriores, está voltada para países centrais da Zona do Euro, Alemanha, França e Itália. As outras duas anteriores tinham-se centrado nos países periféricos, Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda. De certa maneira, esta recessão é consequência da Grande Recessão que, finalmente, atingiu em cheio o centro e o eixo da Zona Euro. O PIB dos três países centrais soma 8,8 triliões de euros, que é a dimensão da economia da China. E dado que a economia da Alemanha (que equivale a um terço do PIB da Zona Euro) se baseia muito nas exportações, que representam 56% de sua economia, esta queda da economia do centro da Zona Euro prevê uma desaceleração da economia mundial.

Os factos políticos que estão a acontecer no continente europeu, dos quais o conflito da Ucrânia é de grande importância, contribuíram (apesar de não terem causado) para esta terceira recessão. O golpe de Estado na Ucrânia, com o apoio dos governos da União Europeia e dos Estados Unidos, iniciou uma situação de conflito, reavivando a Guerra Fria, que já está a ter um custo económico considerável. Mas a principal causa da terceira recessão são as políticas neoliberais baseadas na austeridade (os infames cortes e o desmantelamento do Estado Social, a diminuição dos salários e o crescimento do desemprego), que estão a destruir liminarmente a classe média. E estas políticas estão a ser feitas para benefício e glória do que antes era chamado o capital, hegemonizado pelo capital financeiro, e que agora se chama o 1%. Actualmente, o establishment (ou seja, a estrutura do poder económico, financeiro, mediático e político) europeu, centrado na Comissão Europeia, no Banco Central Europeu, o Conselho Europeu e o governo alemão e seus aliados, como o governo Rajoy e o de Passos Coelho, estão a realizar tais políticas com toda crueldade, respondendo a cada crise com a resposta previsível de que o facto de não sair da crise é porque precisam aplicá-las com mais força e contundência, levando as classes populares à ruína. Três recessões em cinco anos é o resultado.

O grande drama é que as esquerdas governantes aceitaram e continuam a aceitar o dogma neoliberal. A sua versão é a versão light das mesmas políticas. Não têm mais a ver com as propostas económicas dos principais partidos social-democratas de oposição, incluindo o PSOE (em Espanha e cujo novo secretário-geral enfatizou, em sua entrevista ao El País, como ponto central de seu programa económico melhorar a competitividade europeia e espanhola) e PS de Seguro (em Portugal), para perceber que não há uma mudança substancial destas políticas, sob o argumento de que estas são as únicas possíveis. Acusam as únicas alternativas que permitem romper com esta série de recessões de utópicas de demagógicas e uma série de epítetos desqualificativos. A experiência histórica mostra que, para sair desta recessão crónica (que, repito, alcança dimensões de depressão em muitos países), é necessária uma mudança quase de 180º da política aplicada.

Há alternativas

Sim, por exemplo, centramo-nos em um dos maiores problemas – o endividamento das famílias e de grandes e pequenas empresas – a solução é fácil de ver. Os Estados têm que garantir o crédito, tomando uma série de medidas, desde mudar a governança do euro e do BCE, estabelecendo o crescimento económico como objectivo deste Banco, até aumentar a capacidade aquisitiva das classes populares com um aumento muito notável e massivo do gasto público, incluindo o gasto em infra-estruturas, não somente físicas, mas sociais do país, facilitando o alcance da felicidade (sim, leu certo, felicidade) como objectivo do novo modelo económico-social, e não a acumulação de benefícios do capital. E tudo isso não acontecerá sem uma profunda democratização das instituições que reflectem a vontade e a soberania popular. Actualmente, a demanda mais revolucionária existente na Europa não é a nacionalização dos meios de produção, mas a exigência de que cada cidadão tenha a mesma capacidade de decisão num país, enfatizando as formas de participação directa (o direito a decidir todos os níveis), além de democratizar as escassamente democráticas instituições representativas.

Exigir democracia com toda contundência e agitação (que deve excluir qualquer forma de violência) é revolucionário, pois entra em conflito directo com as estruturas que controlam as instituições que se autodefinem como democráticas. Também não é afirmar que a propriedade dos meios de produção, distribuição, persuasão e legitimação é chave para definir o grau de liberdade, democracia e justiça existente num país.

O grande erro de muitas esquerdas radicais tem sido limitarem- se à agitação, sem intervir na luta dentro do Estado. Estas esquerdas devem estar na rua e nas instituições, exigindo mudanças radicais (ou seja, que vão às raízes do problema de concentração de poder) contra as quais as estruturas e castas de poder se vão opor de todas as maneiras. As classes populares poderão alcançar o que desejam se se mobilizarem. O problema principal existente na Espanha e em Portugal não é o de a população não estar consciente das enormes limitações da democracia nos seus países, mas sim não acreditar que isto possa mudar. Mas a história mostra que sim, que é possível. Ao contrário do que as estruturas de poder informaram, a mudança das ditaduras para a democracia aconteceram como consequência da enorme mobilização popular, liderada pelo movimento dos trabalhadores. Foi esta mobilização que colocou fim às ditaduras. E esta mobilização pode também forçar mudanças agora, democratizando autenticamente os países. 







[1] Vicenç Navarro foi Catedrático de Economia Aplicada da Universidade de Barcelona. Actualmente é Catedrático de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona. É também professor de Políticas Públicas na Johns Hopkins University (Baltimore, EUA) onde leccionou durante 35 anos. Dirige o Programa em Políticas Públicas e Sociais patrocinado.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

IMPRENSA, POLÍTICOS E MARIONETAS




Um candidato a PM, por um partido que aspira a ser governo, tem a noção dos tempos e não gasta o seu latim pesado numa campanha prévia, numa disputa interna, um ano antes das eleições (João Miguel Tavares, aqui).

Um candidato a PM não se deve desgastar com promessas futuras, defesa de projectos à distância e apontar para resoluções a tomar daqui a mais de um ano, desconhecendo como estará a situação concreta dos acontecimentos, findo esse período de tempo – é muito tempo para analisar o comportamento do actual governo, sabendo a forma como trampolinam os factos e as realidades.

Um candidato a PM deve preocupar-se, isso sim (enquanto candidato, à distância de um ano), com a análise dos acontecimentos actuais, com a denúncia das iniquidades que afectam os cidadãos, com a competência e as provas dadas, promovendo, na análise dos eleitores, a antevisão da sua gestão, quando for PM.
Todavia, um óbice se nos apresenta – o veículo de divulgação. Esse veículo é, de um modo geral, a comunicação social, o tipo de jornalismo praticado e de comentadores escolhidos. Em suma, a manipulação da informação. Longe vai o tempo em que era condição suficiente para a verosimilhança da narrativa que determinado acontecimento ou facto tivesse sido veiculado pela televisão ou por determinado jornal.

Os jornalistas trabalham num regime de “liberdade vigiada”. A sua autonomia é limitada pelas posições editoriais que os profissionais da imprensa devem seguir. As notícias são elaboradas e editadas em redacções hierarquizadas que exercem forte coerção sobre quem produz e o que é produzido dentro delas. A imprensa histórica tem compromissos com os interesses corporativos e comerciais que ela deve acolher e isso compromete a sua credibilidade aos olhos da crítica e do público. (Luís Carlos Lopes [1])

Como escreve Estrela Serrano, no “Vai e Vem” (aqui), “uma explicação para esta súbita fixação dos jornalistas no “concreto” quando falam com António Costa está talvez no facto de pretenderem contrariar a ideia, corrente até há pouco, de que Costa tem “boa imprensa”. A demarcação surge então sob a forma de um jornalismo agressivo ou sob a (nova) forma de um jornalismo que, à falta de melhor termo, se pode chamar “jornalismo concreto”.

Como resolver…? – Não sei!

Todavia, quanto mais penso numa solução, mais me lembro de Guerra Junqueiro:

“Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar” [2].






[1] Luís Carlos Lopes é professor adjunto IV do Departamento de Comunicação Social e membro do corpo permanente do Mestrado em Comunicação, Imagem e Informação do Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense.
[2] Guerra Junqueiro, in “Pátria (1896)”

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

NÃO COMPRO VOTOS…!



António Costa, como eu o compreendo…!
Por mais que queira não entrar no ataque pessoal, não se pode evitar a denúncia do vício, da maldade, da incompetência e do afrontamento à democracia pela tentativa de manipulação dos aparelhos políticos. Seria demais!
Compreendo perfeitamente que não queira pessoalizar a campanha, mas, obrigatoriamente, terá de denunciar as manobras torpes do seu adversário; que, neste caso, não é um adversário político (embora não saiba como o hei-de definir).
Seria bom para todos nós podermos ouvir ou assistir a um debate político sobre os problemas do País, os programas de cada um dos candidatos, a apresentação das suas experiências políticas e partidárias, etc.. Para o seu oponente, o senhor não passa de um inimigo, quando deveria ser considerado, tão só, um adversário político, merecedor de elevada consideração, por respeito para com os eleitores. Em democracia, concorrer a um cargo é salutar e deveria distinguir, de igual modo, tanto vencedor como vencidos.
António Costa, fez muito bem em se demarcar de Seguro esclarecendo frontal e publicamente que não compra votos, nem ressuscita mortos e não se quer confundir com os que andam há anos na política sem que ninguém se lembre de nada que tenham feito.
Bem-haja, António Costa! Demarque-se do oportunismo político…


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

INCOMPETÊNCIA OU CRIME?


Público, de 25-08-2014

Mais uma vez…!

Falhar ou não conseguir cumprir por incompetência, incapacidade, inaptidão ou inabilidade é mau. Muito mau, mesmo! Mas admite-se que possa não haver má-fé ou má vontade – somente incultura, ignorância…

Todavia, toda a gente sabe que quem não estiver habilitado para desempenhar um cargo ou uma função, simplesmente não o deve fazer; se insistir, incorre num crime.

Porém, é inqualificavelmente mais grave se a intenção for mesmo a de ludibriar as disposições legais, afrontar quem o elegeu, prevaricar, desafiar os poderes instituídos; em suma, destruir o que é de todos… Que nome se pode dar a isto…?


terça-feira, 12 de agosto de 2014

CAPITALISMO – A ANULAÇÃO DO OUTRO




A maior desgraça que nos tombou em cima não foi a crise económica, nem tampouco a incapacidade de vermos a luz ao fundo do túnel; a maior desgraça é sermos incapazes de idealizar uma alternativa distinta daquela em que vivemos. Todas as propostas para corrigir o problema partem sempre da base de não se mudar o modelo – o sistema –, e essa é a desgraça que nos impede de sair da situação em que nos encontramos. O capitalismo injectou-nos um “senso comum” que nos incapacita para pensar outra coisa que não seja o capitalismo. Tudo nos leva a crer que a economia é uma realidade alheia ao social, à ética, à política ou à religião, que pode funcionar sem necessidade de considerar questões sobre se é lícito ou não fazer isto ou aquilo, o que se pode fazer ou não, etc.. O único sentido que rege a economia é a maximização do benefício e a minimização do esforço; qualquer outra questão fica fora do âmbito económico. Um economista seria algo assim como um ser racional que pesaria as opções de obter benefícios em função das opções que lhe oferece o mercado, sem se quedar para pensar em mais nada que não fossem os limites impostos pelas leis – leis que cada vez menos valor têm no mundo da economia, provocado pela eliminação das regras nessa área. Deste modo, um ser racional só deveria procurar o máximo benefício, que é o “senso comum” da economia capitalista, isto é, o “sem sentido” que nos levou à situação actual.

Em 1910, um pregador e economista britânico, digno sucessor daquela magnífica escola de pensamento – quando ainda não se tinha separado a economia da ética e da moral –, atingiu o ponto do fundamento da economia capitalista. Chamou-lhe o “Senso Comum da Economia Política”: Philip H. Wicksteed, The common Sense of Political Economy (Londres 1910). É uma obra em dois volumes onde deixa claro que a economia não é algo alheia às restantes realidades humanas, porém alerta para a mudança radical que esperava a economia dos anos 20 do século passado.

A chave para entender a economia capitalista não é apelidá-la de egoísta; não é o egoísmo, a fixação no benefício próprio, o que fundamenta a economia, é a indiferença pelo outro concreto, aquele que está do outro lado do intercâmbio económico, que está na base do capitalismo – é a total indiferença pelos outros.
O capitalismo é muito pior do que aquilo que possamos pensar. O problema não é o homem capitalista que vive encerrado nos seus desejos e apetites, é o facto de viver da negociação do outro e, principalmente, da sua anulação.

Podemos ver duas passagens que ilustram o pensamento de Wicksteed:

- Book I, Ch.5. 24: The specific characteristic of an economic relation is not its “egoism,” but its “non-tuism”.
- Book I, Ch.5. 25: That is to say, since a man, when he is doing business, is generally only thinking of his own bargain, and how to deal with his correspondent, and not of any one else at all, the exclusion of “tu” is tantamount to the solitary survival of “ego”. So that, after all, “altruism” has no place in business, and “non-tuism” is equivalent to “egoism”.

Como vemos, no capitalismo, a exclusão do “Tu” é equivalente à sobrevivência do Eu, é a possibilidade de ser “homo œconomicus”. Não há lugar para o altruísmo nos negócios, mas sim para a negação do outro como fundamento do Eu Económico. O Senso Comum capitalista é algo muito estranho para ser de um homem normal, deve ser forçado para que o aceite, para que aceite que o “seu Ser” cresça quando o nega a outros, que o “Seu Eu” não seja um projecto comum que se insere na história, na sociedade e num mundo equânimo. O grande mal que nos transmite o capitalismo não é só o egoísmo, é o não-tuísmo e a negação do outro. O capitalismo é a descendência económica dum projecto de ruptura da modernidade cartesiana e com ele deve morrer.

O verdadeiro e único sentido comum humano é o que está ligado a um mundo natural que é a sua base e o seu assento mais seguro; é ser-se filho de um povo, com uma história e um projecto de amor vinculado e relacional. O Senso Comum humano expressa-se nas tradições e nos ensinamentos dos povos: não tomar mais do que se precisa, respeitar os outros, dar quando sobra e não pedir quando não necessita. Por último, o Senso Comum humano corresponde a uma sabedoria ancestral que nos foi transmitida evolutivamente e cuja negação ou atentado nos tirará deste planeta. Há uma contradição essencial entre o que é humano e o capitalismo que se pretende elevar a uma gama de legalidade máxima. É necessário e urgente destruir-se o capitalismo como Sistema Económico e Social. Ou eliminamos o capitalismo ou este nos eliminará a nós.


quarta-feira, 16 de julho de 2014

NENHUM DOS SOBREVIVENTES MORREU…!




Estamos a sair da crise…!

Sem grandes preocupações ou já sem necessidade de o justificar, o governo vai acabando com a crise.

Dois casos:

1º Caso – a Fome
«Os hospitais Amadora-Sintra e Pedro Hispano, em Matosinhos, registaram casos de grávidas ou crianças que ficaram internadas para se alimentarem.

Alguns hospitais portugueses estão a receber grávidas e crianças com fome que, por vezes, acabam por ser internados para suprir as suas necessidades alimentares. A realização de alguns exames médicos, como o CTG (que mede a frequência cardíaca do feto e as contracções), é posta em causa pela falta de alimentação, já que se a mãe não estiver alimentada o feto não está reactivo.

O Ministro da Saúde, Paulo Macedo, anunciou, esta semana, que está em curso uma "uma revisão da legislação para que todos os casos de carácter social possam ser tratados na sua esfera própria, que é a social"». (aqui)

Mas… Até agora, onde eram tratados…? Ou não passavam fome, ou regiam-se por normas normais de sobrevivência, à margem das leis – em suma, simplesmente viviam.

2º Caso – a Saúde

«Dois doentes morreram enquanto esperavam por uma intervenção no Hospital Santa Cruz, alegadamente por falta de dispositivos médicos devida a “limitações administrativas”, denunciou hoje a Ordem dos Médicos, com base na denúncia de clínicos da unidade de saúde.

[…] Além destas duas mortes, os médicos do Hospital de Santa Cruz que efectuaram a denúncia à Ordem garantem que a Unidade de Intervenção Cardiovascular “ficou sem capacidade de resposta desde o dia 04 de Julho por falta de manutenção e material”». (aqui)


Será isto acabar com a crise…?

Por este andar, quando conseguirem acabar com a crise, poucos sobreviventes restarão. Poderão, então, apregoar aos quatro ventos que nenhum dos sobreviventes morreu…! Todos os sobreviventes se salvaram…!


quarta-feira, 9 de julho de 2014

O FUTEBOL – RELIGIÃO SECULAR MUNDIAL




O presente Campeonato Mundial de Futebol que se realiza no Brasil, bem como outros grandes eventos futebolísticos, semelhante ao mercado, assumem características, próprias das religiões. Para milhões de pessoas o futebol, o desporto que possivelmente mais mobiliza no mundo, ocupou o lugar que comumente detinha a religião. Estudiosos da religião, somente para citar dois importantes como Emile Durkheim e Lucien Goldmann, sustentam que “a religião não é um sistema de ideias; é antes um sistema de forças que mobilizam as pessoas até levá-las à mais alta exaltação”(Durckheim).

A fé vem sempre acoplada à religião. Esse mesmo clássico afirma no seu famoso “As formas elementares da vida religiosa”: “A fé é antes de tudo calor, vida, entusiasmo, exaltação de toda a actividade mental, transporte do indivíduo para além de si mesmo”(p.607). E conclui Lucien Goldamnn, sociólogo da religião e marxista pascaliano: “crer é apostar que a vida e a história tem sentido; o absurdo existe mas ele não prevalece”.

Ora, se bem reparamos o futebol para muita gente preenche as características religiosas: fé, entusiasmo, calor, exaltação, um campo de força e uma permanente aposta de que seu time vai triunfar.

A espectacularização da abertura dos jogos lembra uma grande celebração religiosa, carregada de reverência, respeito, silêncio, seguido de ruidoso aplauso e gritos de entusiasmo. Ritualizações sofisticadas, com músicas e encenações das várias culturas presentes no país, apresentação de símbolos do futebol (estandartes e bandeiras), especialmente a taça que funciona como um verdadeiro cálice sagrado, um santo Graal buscado por todos. E há, valha o respeito, a bola que funciona como uma espécie de hóstia que é comungada por todos.

No futebol como na religião, tomemos a católica como referência, existem os onze apóstolos (Judas não conta) que são os onze jogadores, enviados para representar o país; os santos referenciais como Pelé, Garrincha, Beckenbauer, Eusébio, Ronaldo e outros; existe outrossim um Papa que é o presidente da FIFA, dotado de poderes quase infalíveis. Vem cercado de cardeais que constituem a comissão técnica responsável pelo evento. Seguem os arcebispos e bispos que são os coordenadores nacionais da Copa. Em seguida aparece a casta sacerdotal dos treinadores, estes portadores de especial poder sacramental de colocar, confirmar e tirar jogadores. Depois emergem os diáconos que formam o corpo dos juízes, mestres-teólogos da ortodoxia, vale dizer, das regras do jogo e que fazem o trabalho concreto da condução da partida. Por fim vêm os acólitos – os “bandeirinhas” – que ajudam os diáconos.
O desenrolar de uma partida suscita fenómenos que ocorrem também na religião: gritam-se jaculatórias (palavras de ordem), chora-se de comoção, fazem-se rezas, promessas divinas, figas e outros símbolos da diversidade religiosa brasileira. Santos fortes são aí evocados e invocados.

Existe até uma Santa Inquisição, o corpo técnico, cuja missão é zelar pela ortodoxia, dirimir conflitos de interpretação e eventualmente processar e punir jogadores.

Como nas religiões e igrejas existem ordens e congregações religiosas, assim há as “torcidas organizadas”. Elas têm os seus ritos, os seus cânticos e a sua ética.

Há famílias inteiras que escolhem morar perto do Estádio que funciona como uma verdadeira igreja, onde os fiéis se encontram e comungam seus sonhos. Tatuam o corpo com os símbolos do clube; a criança nem acaba de nascer, mas a porta da incubadora já vem ornada com os símbolos do clube, quer dizer, recebe já aí o baptismo que jamais deve ser traído.

Considero razoável entender a fé como a formulou o grande filósofo e matemático cristão Blaise Pascal, como uma aposta: se aposta que Deus existe tem tudo a ganhar; se de facto não existe, não tem nada a perder. Então é melhor apostar de que exista. O adepto vive de apostas (cuja expressão maior é a lotaria desportiva) de que a sorte beneficiará a equipa ou de que outra coisa, no último minuto do jogo, tudo pode virar e, por fim, ganhar por mais forte que for o adversário. Como na religião há pessoas referenciais, da mesma forma vale para os craques.

Na religião existe a doença do fanatismo, da intolerância e da violência contra outra expressão religiosa; o mesmo ocorre no futebol: grupos de um clube agridem outros do clube concorrente. Os autocarros são apedrejados. E podem ocorrer verdadeiros crimes, de todos conhecidos, que claques organizadas e de fanáticos que podem ferir e até matar adversários de outro clube concorrente.

Para muitos, o futebol transformou-se numa cosmovisão, uma forma de entender o mundo e de dar sentido à vida. Alguns são sofredores quando seu clube perde e eufóricos quando ganha.

Há jogadores que são geniais artistas de criatividade e habilidade. Não sem razão, o maior filósofo do século XX, Martin Heidegger, não perdia um jogo importante, pois via, no futebol a concretização de sua filosofia: a contenda entre o Ser e o Ente, enfrentando-se, negando-se, compondo-se e constituindo o imprevisível jogo da vida, que todos jogamos.

Adaptado de Leonardo Boff.


terça-feira, 8 de julho de 2014

UM TUFÃO QUE AMEAÇA OS EUROPEUS




E se de repente a Europa começasse a pensar em baixar os impostos relacionados com o trabalho, em Portugal; a Alemanha criasse um salário mínimo nacional (€ 1.496,00) … enfim, desconfiaríamos. Será que pretendem garantir a observância de uma certa estabilidade financeira (que não económica) para cumprir acordos…?

– Tratado Transatlântico.

Vejamos o que se poderá “especular”, depois de se ler o artigo de Lori Wallachi, Directora da Public Citizen’s Global Trade Watch (Washington), publicado no Le Monde diplomatique (edição portuguesa).

“Iniciadas em 2008, as discussões sobre o Acordo de Comércio Livre entre o Canadá e a União Europeia foram concluídas a 18 de Outubro. Um bom presságio para o governo americano, que espera concluir uma parceria deste tipo com o Velho Continente. Este projecto, negociado em segredo e intensamente apoiado pelas multinacionais, permitirá que estas processem os Estados que não se verguem às normas do liberalismo”.

Será imaginável que multinacionais processem judicialmente os governos cuja orientação política tenha o efeito de diminuir os seus lucros? Será concebível que elas possam exigir – e conseguir! – uma generosa compensação por ganhos cessantes (não realizados), induzida por um direito do trabalho demasiado constrangedor ou por uma legislação ambiental demasiado espoliadora? Por inverosímil que pareça, este cenário não é novo. Ele estava já presente, com toda a clareza, no Projecto de Acordo Multilateral sobre o Investimento (AMI) negociado secretamente entre 1995 e 1997 pelos vinte e nove Estados-membros da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Divulgado “in extremis”, nomeadamente pelo Le Monde diplomatique, o texto suscitou uma vaga de protestos sem precedentes, forçando os seus promotores a retirá-lo. Passados quinze anos, eis que regressa com novas roupagens.

O Acordo de Parceria Transatlântica (APT), negociado desde Julho de 2013 pelos Estados Unidos e pela União Europeia, é uma versão modificada do AMI. Prevê que as legislações em vigor dos dois lados do Atlântico se verguem às normas do comércio livre estabelecidas por e para as grandes empresas europeias e norte-americanas, sob pena de sanções comerciais para os países infractores ou de reparações de vários milhões de euros em benefícios dos queixosos.

Segurança dos alimentos, normas de toxicidade, seguros de saúde, preço dos medicamentos, liberdade da Internet, protecção da vida privada, energia, cultura, direitos de autor, recursos naturais, formação profissional, equipamentos públicos, imigração: não há qualquer domínio de interesse geral que escape à vergonha do comércio livre institucionalizado.

Eis alguns assuntos que, com as suas gravíssimas implicações, não foram descurados pelos “outorgantes”:

- Tribunais especialmente criados

- Processo por aumento do salário mínimo

- A “injusta” rejeição da carne de porco com ractopamina

E se, de repente, os grandes da Europa começassem a viajar (em negócios) por países fora do TTA  (por exemplo, a China) …?

– Não, não é Impulse…! Talvez… esperteza… ou poder…

Está já estipulado que os países signatários deverão assegurar a “colocação em conformidade das suas leis, regulamentos e procedimentos” com as disposições do tratado. Ninguém duvida que procurarão honrar escrupulosamente este compromisso. No caso contrário, poderiam ser alvo de processos judiciais num dos tribunais especialmente criados para arbitrar os litígios entre os investidores e os Estados, que serão dotados do poder de sentenciar sanções comerciais contra estes últimos.

Enfim…! É o que nos espera.

O projecto de grande mercado americano-europeu é defendido há muitos anos pelo Diálogo Económico Transatlântico (Trans-Atlantic Business Dialogue, TABD), um lóbi hoje mais conhecido pela designação de Trans-Atlantic Business Council (TABC). Criado em 1995 com o patrocínio da Comissão Europeia e do Ministério do Comércio norte-americano, este grupo de ricos empresários milita a favor de um “diálogo” altamente construtivo entre as elites económicas dos dois continentes, a administração de Washington e os comissários de Bruxelas. O TABC é um fórum permanente que permite às multinacionais coordenarem os seus ataques contra as políticas de interesse geral que ainda se mantêm de pé dos dois lados do Atlântico.


segunda-feira, 7 de julho de 2014

O BANQUEIRO



Este texto seguinte, escrito por Craig-James Moncur, ilustra bem o que é a trapalhada de banqueiros e poderosos. Somente a incompetência de uns e a “zanga de comadres” permitiu que pudéssemos pôr os pés no chão e tenuemente vislumbrássemos um resquício do poder medonho que nos escraviza.


Vejamos o texto e o vídeo de "O Banqueiro", de Craig-James Moncur, interpretado por Mike Daviot:

“Olá. O meu nome é Montague William III. O que vos vou contar pode parecer absurdo; mas, quantos menos acreditarem, melhor para mim. É que, sabem, eu estou na finança e na grande indústria.

Por muitos anos controlámos as vossas vidas, enquanto muitos de vós lutam e sofrem. Nós criámos as coisas que vocês, de facto, não necessitam: os carros desportivos, as modas e os plasmas…

Lembro-me, com clareza, como tudo começou – segredos de família de pai para filho. Conhecimento herdado, que me dá a vantagem.

Enquanto vós, camponeses, digo, pessoas jazem a dormir à noite nas vossas camas, nós controlamos o dinheiro que controla as vossas vidas. Enquanto vocês adoram falsos ídolos e não pensam duas vezes em vender as vossas almas por um lugar ao sol – estas coisas que não interessarão quando a vossa hora chegar. Mas enquanto eles lá estiverem para controlar as massas, eu apenas me reclino e pondero os meus activos, seguro na certeza de que tudo possuo, enquanto vós, pessoas comuns, perdem os vossos empregos. Estão a ver, por vós apenas tenho o máximo desprezo.

Mas o sorriso na minha face torna-me isento porque eu tenho a arma da televisão global que nos une e convida à empatia. Vocês acreditarão genuinamente que nós temos os vossos interesses em mente. Mas, se vocês vissem isso então tomariam de volta o poder. Daí os terrores diários que vos amedrontam; os pânicos e os colapsos bolsistas, as guerras e as doenças que impedem que encontrem a vossa integridade espiritual. Nós deturpamos o jogo; nós compramos ambos os lados para vos manter escravos nas vossas tristes vidas. Por isso, vão e trabalhem à medida que o vosso relógio perde corda. E quando tudo estiver acabado, a uns anos da cova, olharão para tudo isto e, apenas nessa altura, verão que a vossa vida foi nada – uma mera fantasia.

Há muito poucas coisas que nós não controlamos. Possuir os advogados e a polícia sempre foi um objectivo, cumprindo os nossos propósitos à medida que marcham na rua; mas eles nunca se aperceberão que são apenas gado, pois o poder real reside nas mãos de uns poucos.

Vocês votaram por partidos; que mais poderiam fazer? Mas o que vocês não sabem é que eles são um e o mesmo. O velho Gordon passou as rédeas ao velho David e vocês seguirão o líder que foi lá posto por vós.

O vosso sangue corre vermelho, enquanto o nosso corre azul; mas vocês simplesmente não vêem – faz tudo parte do jogo.

Outra distracção como o dinheiro e a fama. Preparem-se para as guerras em nome dos livres: Vacinas para doenças que nunca o serão, o assalto às impressionáveis mentes das vossas crianças e um mundo “microchipado” vocês nem darão luta. A supressão de informação manter-vos-á em sentido. O despovoamento de camponeses sempre foi o nosso objectivo; mas, a eugenia não foi o que nós esperávamos que fosse.

Oh sim, fomos nós quem financiou os Nazis! Mas, desde que sejamos donos de todos os media, o que realmente está a acontecer não vos diz respeito. Por isso continuem apenas a ver a vossa televisão de plasma e o mundo será governado por aqueles que vocês não podem ver”.




sexta-feira, 4 de julho de 2014

CARLOS DO CARMO, PARABÉNS!




Agora, sim…! Consigo perceber a dimensão do prémio atribuído a Carlos do Carmo. A sua dimensão, a exemplo do Prémio Nobel atribuído a José Saramago, não foi tomado em consideração por Cavaco Silva – transcendem-no.

Este reconhecimento que o mundo, na sua globalidade cultural, atribuiu a Carlos do Carmo – como já o fizera a José Saramago – supera a capacidade do primeiro magistrado da nação. A grandeza destes reconhecimentos – Prémios – está muito acima da compreensão do presidente; talvez não seja por mal, simplesmente não os compreende…

Carlos do Carmo, parabéns pelo prémio cujo reconhecimento está muito acima da compreensão dos “simples” (de compreensão)… Se fosse futebol (mesmo perdendo) talvez tivesse direito a um “telefonemazinho” a felicitá-lo (como o fez o presidente americano à sua equipa).

Todavia, estranho, porque é um prémio que também reconhece o Fado… Mas a sua arte, Carlos do Carmo, não se enquadra na trilogia do passado – Fado, Fátima e Futebol. Aquilo que o Carlos nos tem dado é Arte. Não pode esperar que todos a compreendam (principalmente os… vá lá… facciosos.


sábado, 21 de junho de 2014

OS DONOS DA DEMOCRACIA





Julgava eu que um militante de um partido democrático, no mínimo, deveria ser um democrata; e, mais: pensava, ainda, que um responsável de um partido democrático só poderia exercer funções se fosse um democrata e respeitasse o princípio da representatividade – isto é, deixaria de desempenhar as funções para as quais fora eleito ou sujeitar-se-ia a novas eleições, caso sentisse, suspeitasse ou lhe fosse mostrado que já não representava a vontade da maioria.

Mas, o que é democracia? 

– Democracia é uma forma de governo em que todos os cidadãos elegíveis participam igualmente – directamente ou através de representantes eleitos – na proposta, no desenvolvimento e na criação de leis, exercendo o poder da governação através do sufrágio universal. (fonte)

Mais, ainda:

Democracia participativa (ou democracia deliberativa) significa a possibilidade de intervenção directa dos cidadãos nos procedimentos de tomada de decisão e de controlo do exercício do Poder.

Permite-lhes terem acesso aos seus representantes em permanência e não apenas periodicamente nas eleições, como na Democracia representativa, mas usual na Democracia directa e na Democracia semidirecta, fazendo ouvir as suas opiniões de forma institucionalizada, prévia à tomada de decisões, e deliberar sobre elas.

É um sistema onde se pretende que existam efectivos mecanismos de controlo exercidos pela sociedade civil sobre a administração pública, não se reduzindo o papel democrático apenas ao voto, mas também estendendo a democracia para a esfera social.

Em causa está o princípio democrático na sua vertente de princípio da participação. Pode assumir as mais variadas formas, desde as clássicas, como o referendo, até às formas que propiciam intervenções mais estruturantes no processo de formação das decisões, como a iniciativa legislativa, o veto popular, etc.

A democracia participativa é considerada um modelo ou ideal de justificação do exercício do poder político pautado no debate público entre cidadãos livres e em condições iguais de participação. Advoga que a legitimidade das decisões políticas advém de processos de discussão que, orientados pelos princípios da inclusão, do pluralismo, da igualdade participativa, da autonomia e da justiça social, conferem um reordenamento na lógica de poder político tradicional.

Ora, no meu humilde entender, um cidadão eleito democraticamente para desempenhar funções de liderança, logo que se sente confortável na sua eleição modifica as regras que blindam a possibilidade de ser contestado, não poderá ser considerado um democrata. Pelo contrário, uma atitude destas só poderá ser considerada como um crime de lesa-democracia. Mais grave, quando, através da calúnia e da insinuação insidiosa, tenta a todo o custo impedir quem de boa-fé tenta exercer um direito (e, neste caso, uma obrigação) de se candidatar democraticamente a uma eleição.

Estou à vontade para me pronunciar sobre este assunto relativamente ao PS porque não sou militante, pelo que não me poderão associar a interesses de alguma das partes. Todavia, apercebo-me de quanto mal esta situação (entenda-se a teimosia, para não dizer outra coisa pior, de António José Seguro) provoca no Partido que ajudou à consolidação da democracia após a Revolução de Abril e as brechas que provoca na couraça democrática que tem resistido estoicamente a este governo ultraliberal.

Tudo isto só é possível porque, tanto o líder do maior partido da oposição como o líder do governo, leram da mesma cartilha político-partidária – conquista do poder a qualquer preço – ministrada nas “jotas” dos respectivos partidos a que pertenciam. Nessas cartilhas aprenderam, principalmente, a sabujice e a arte do logro.

Cansados de tanta pichagem a que “voluntariamente” foram “coagidos”, de tantos fretes políticos a que se submeteram, de tantos “sapos vivos” que tiveram de engolir, juraram que – quando fossem grandes – haveriam de ser os donos da democracia, mesmo que para isso tivessem de destruir a liberdade.


quinta-feira, 19 de junho de 2014

MAIS BAIXO DE ONDE ESTÁ NÃO PODE DESCER





Vítor Gaspar demitiu-se. Da miserável consideração em que estava cotado perante mim, conseguiu dar um salto qualitativo e assemelhar-se a um homem com “H grande”… Deu-se ao respeito e, num assomo de dignidade, pediu a demissão. Não se quedou por aí. Na carta justificativa do seu abandono de lugar, retractou a real capacidade de liderança do Primeiro-Ministro – não existia.

Hoje, pouco menos de 24 horas depois da declaração oficial do “constitucionalista” Poiares Maduro (digno substituto de Relvas), o governo decidiu desautorizar o seu porta-voz (e “eminente constitucionalista”) ignorando a sua extravagante “interpretação” do Acórdão do Tribunal Constitucional. Não foi um acto de liderança do PM (que, no entender de Vítor Gaspar, não tem capacidade para tal), mas tão só um mero exercício de chefia – dar ordens, mesmo sem significado ou conteúdo…

Não sei se deva esperar que este ministro – Poiares Maduro – tenha um assomo de dignidade semelhante ao de ex-ministro das Finanças e se demita. Não sei se já tomou uma atitude de, no mínimo, respeitar-se a si próprio e saia do governo (ou com o governo). Mas, se o não tiver feito ou não o vier a fazer, não irá descer na minha consideração, porque mais baixo de onde está não pode descer. Ele e os seus colegas de (des)governo.




segunda-feira, 9 de junho de 2014

LÍDERES E LIDERANÇAS


Estava a tentar perceber as imbecis atitudes do “líder” António Seguro – chefe do Partido Socialista (que não líder) – quando me lembrei do extraordinário exemplo que, mais uma vez, o Papa Francisco nos tem dado, demonstrando, na sua simplicidade e humildade, a extraordinária diferença entre chefiar e liderar.

O acontecimento foi-me narrado pelo meu amigo PB que, com tantos cursos ministrados sobre liderança, reconhece que, com imagens como as do Papa Francisco, continua sempre a aprender. Só António José Seguro e tantos outros (no governo, nos partidos, nos órgãos de soberania, nos inúmeros centros de decisão, etc.), forjados nas juventudes partidárias (“os jotas”), não distinguem o verdadeiro sentido de líder (e liderança); pior: com a sua cega e desmesurada ambição conduzem os “seus liderados” à desgraça e à destruição.

Na imagem podemos constatar que uma das últimas cadeiras da igreja é ocupada pelo Papa. É o que se vê na foto. Ele está a celebrar uma Missa muito peculiar: os convidados são os jardineiros e o pessoal de limpeza do Vaticano. Num momento da celebração o Papa pede a todos que orem em silêncio, cada um pelo que o seu coração deseja.

Nesse instante, ele levanta-se da sua cadeira presidencial que está na frente e vai sentar-se numa das últimas cadeiras para fazer a sua própria oração. Dá a impressão de que este chefe preferiu que todos se centrem em ver de frente a verdadeira razão da sua existência, esse Cristo crucificado que está ali presente e não em que o vejam a ele, o seu chefe, que não é mais que um homem que falhou e continuará a falhar, e a quem hoje todos chamamos o Papa Francisco.

A famosa diferença entre chefe e líder é absoluta nesta foto. O chefe sempre se emproa, pondo-se à frente para que todos o vejam e lhe obedeçam, enquanto o líder sabe quando se deve sentar atrás, não incomoda, acompanha, facilita o caminho para que os outros consigam os seus propósitos; o líder é capaz de desaparecer no momento oportuno, para que os seus companheiros cresçam e se centrem no que é verdadeiramente importante. O líder não teme perder o seu lugar, porque sabe que, muito para além do “seu lugar”, trata-se de ajudar aqueles que se encontram no seu caminho.

Na foto, o admirável Francisco está de costas. Ele sabe que muitos o queriam ver de frente, mas neste instante tão íntimo, ele prefere ficar de costas para os fotógrafos e dar a cara a esse Deus de todos, Amor para o jardineiro e Amor para o Papa, esse Deus que não diferencia o abraço nem dá mais por um ou por outro, ambos são pecadores e ambos precisam d’Ele.

Quantos chefes terão a capacidade de ir sentar-se naquela cadeira de trás? Quando é que mães e pais terão que “celebrar” essa cerimónia chamada vida com os seus filhos, e num momento oportuno serem capazes de se sentarem atrás, para que eles fiquem de frente para a sua missão? Quantos poderemos voltar as costas aos aplausos, à barafunda dos “clicks”, aos elogios, para dar a cara, num momento íntimo, a essa oração profunda que torna o nosso coração despido de orgulho, a um Deus que deseja com fervor escutar-nos?

O Papa ficou-me gravado nesta foto, e eu espero que hoje esta imagem sirva para me situar no resto da minha vida.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

É DE LOUCOS




“Passos Coelho considerou que os juízes do Tribunal Constitucional, ‘que determinam a inconstitucionalidade de diplomas em circunstâncias tão especiais’, deveriam estar sujeitos a ‘um escrutínio muito maior do que o feito’ até hoje.

‘Como é que uma sociedade com transparência e maturidade democrática pode conferir tamanhos poderes a alguém que não foi escrutinado democraticamente’, questionou Pedro Passos Coelho, apontando para o caso dos Estados Unidos da América em que os juízes ‘escolhidos para este efeito têm um escrutínio extremamente exigente’, disse.

‘Não temos sido tão exigentes quanto deveríamos ter sido’, sublinhou, durante a intervenção que fez esta noite, em Coimbra, no encerramento da primeira conferência do ciclo comemorativo dos 40 anos da fundação do PSD.» [Notícias ao Minuto]

Já muita gente lhe tentou explicar como se processa a escolha dos Juízes do Tribunal Constitucional; mas a compreensão é pouca… Até mesmo o constitucionalista, de reconhecido mérito, e que faz parte do seu próprio Partido – Jorge Bacelar Gouveia (professor catedrático de Direito Constitucional) – lhe relembra, no Público, que “dez dos juízes foram eleitos pela Assembleia da República, por uma maioria idêntica à da revisão ordinária da Constituição, que é de 2/3 dos votos, e com uma audição prévia na 1.ª comissão”. E questiona mesmo: “Não será isso uma escolha democrática? Ou a Assembleia da República deixou de ser um órgão de excelência da democracia representativa”?

É de loucos…!

Este país está a ser liderado por loucos: um – líder do governo, do PSD e que já o foi das “Jotas” – diz que quer alterar o método de escolha dos juízes; o outro – líder do maior Partido da oposição, ex-futuro candidato a PM e que, também, já o foi das “Jotas” – quer alterar a forma como se escolhe o candidato a primeiro-ministro.

Em comum têm o facto de terem alinhado nas juventudes partidárias respectivas, terem uma ambição desmedida, um apego ao poder (a qualquer custo) e um desrespeito permanente e sistemático pelo supremo bem deste País – o Povo.

Como diz “O Jumento”, dois fulanos a quem o País nada deve e de quem ninguém conhece qualquer luta pela democracia ou qualquer rasgo de inteligência querem governar o país à medida das suas imbecilidades.



segunda-feira, 26 de maio de 2014

O PAVOR DOS ABASTADOS

Está a causar enorme furor entre os leitores de assuntos económicos, economistas e principalmente pânico entre os muito ricos um livro de 700 páginas escrito em 2013 e publicado em muitos países em 2014. Transformou-se num verdadeiro best-seller. Trata-se de uma obra de investigação, que cobre 250 anos de história, de um dos mais jovens (43 anos) e brilhantes economistas franceses – Thomas Piketty. O livro intitula-se de “O capital no século XXI” (Seuil, Paris 2013). Aborda fundamentalmente a relação de desigualdade social produzida por heranças, rendas e principalmente pelo processo de acumulação capitalista, tendo como material de análise particularmente a Europa e os EUA.

A tese de base que sustenta é: a desigualdade não é acidental, é o traço característico do capitalismo. Se a desigualdade persistir e aumentar, a ordem democrática estará fortemente ameaçada. Desde 1960, o comparecimento dos eleitores nos EUA diminuiu 64% (1960) para pouco mais de 50% (1996), embora tenha aumentado ultimamente. Tal facto deixa perceber que é uma democracia mais formal que real.

Esta tese sustentada pelos melhores analistas sociais e repetida muitas vezes pelo autor destas linhas confirma-se: a democracia e o capitalismo não convivem. E se ela se instaura dentro da ordem capitalista, assume formas distorcidas e até traços de farsa. Onde ela entra, estabelece imediatamente relações de desigualdade que, no dialecto da ética, significa relações de exploração e de injustiça. A democracia tem por pressuposto básico a igualdade de direitos dos cidadãos e o combate aos privilégios. Quando a desigualdade é ferida, abre-se espaço para o conflito de classes, a criação de elites privilegiadas, a subordinação de grupos, a corrupção, fenómenos visíveis em nossas democracias de baixíssima intensidade.

Piketty vê nos EUA e na Grã-Bretanha, onde o capitalismo é triunfante, os países mais desiguais, o que é atestado também por um dos maiores especialistas em desigualdade Richard Wilkinson. Nos EUA os executivos ganham 331 vezes mais que um trabalhador médio. Eric Hobsbown, numa das suas últimas intervenções antes de morrer, diz claramente que a economia política ocidental do neoliberalismo “subordinou propositadamente o bem-estar e a justiça social à tirania do PIB, o maior crescimento económico possível, deliberadamente desigual”.

Em termos globais, citemos o corajoso documento da Oxfam intermón, enviado aos opulentos empresários e banqueiros reunidos em Davos em Janeiro deste ano como conclusão de seu “Relatório Governar para as Elites, Sequestro democrático e Desigualdade económica”: 85 ricos têm dinheiro igual a 3,57 mil milhões de pobres do mundo.

O discurso ideológico aventado por esses plutocratas é que tal riqueza é fruto de activos, de heranças e da meritocracia; as fortunas são conquistas merecidas, como recompensa pelos bons serviços prestados. Ofendem-se quando são apontados como o 1% de ricos contra os 99% dos demais cidadãos, pois imaginam-se os grandes geradores de emprego.

Os prémios Nobel J. Stiglitz e P. Krugman têm mostrado que o dinheiro que receberam do Governo para salvarem os seus bancos e empresas mal foram empregues na criação de empregos. Entraram logo na peneira financeira mundial que rende sempre muito mais sem precisar trabalhar. E ainda há 21 milhões de biliões de dólares nos paraísos fiscais de 91 mil pessoas.
Como é possível estabelecer relações mínimas de equidade, de participação, de cooperação e de real democracia quando se revelam estas excrescências humanas que se fazem surdas aos gritos que sobem da Terra e cegas sobre as chagas de milhões de “co-semelhantes”?
Piketty não vê caminho mais curto para diminuir as desigualdades do que a severa intervenção do Estado e da taxação progressiva da riqueza, até 80%, o que apavora os super-ricos. Sábias são as palavras de Eric Hobsbown: “O objectivo da economia não é o ganho mas sim o bem-estar de toda a população; o crescimento económico não é um fim em si mesmo, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas”.

E como um gran finale a frase de Robert F. Kennedy: “o PIB inclui tudo; excepto o que faz a vida valer a pena.”

(Do texto de Leonardo Boff aqui)


segunda-feira, 19 de maio de 2014

NÃO PENSO, MAS FAÇO – QUE SE LIXE O ZÉ





Apesar dos avisos sobre o risco de fracasso, o então ministro da Economia Álvaro Santos Pereira (um dos “iluminados” que têm vindo a comer do pote, sem qualquer respeito,) teve a ideia de fazer uma ligação ferroviária sem paragens entre Porto e Vigo, mas a CP e a Renfe estão impedidas de a rentabilizar. O comboio tem transportado, em média, 26 passageiros por viagem, quando tem capacidade para quase 230, o que representa perdas de 1,2 milhões de euros em nove meses.

Nem precisam pensar, fazer estudos, ouvir os mais experientes, ponderar as viabilidades e as alternativas – eles são “o poder”  (julgam !).

Isto é o exemplo dos “orgulhosamente sós” – os discípulos da nova ordem mundial que destrói a humanidade – mais uma vez em funções de governo (como no tempo do velho “estado novo”). Não são eles os prejudicados, somos nós – vítimas deste laboratório “frankensteiniano” – quem sofre os horrores postos em prática pelos incompetentes “aprendizes” do terrível flagelo do neoliberalismo.


quinta-feira, 15 de maio de 2014

EMBUSTE ou CRENÇA (?)




– Tratem da alma, que o corpo já não tem cura…!

– O Serviço Nacional de Saúde (SNS) já não resolve os seus problemas? Procure perto de si um(a) curandeiro(a) que o trate…!

Estas frases poderiam ser “slogans” da 5.ª edição das Jornadas da Saúde, que decorrem de 5 de Maio ao final desta semana e incluem dezenas de actividades em vários espaços parlamentares, entre rastreios, check-ups, conferências e workshops.

E… o que é estranho nisto?

Começa por, no âmbito destas Jornadas da Saúde que estão a decorrer na Assembleia da República, Alexandra Solnado ter sido convidada para as integrar, fazendo uma “palestra” sobre “como as memórias das vidas passadas interferem na saúde”. Não é o convite, em si, que é estranho; é o que ele representa…

Depois, leva-nos a pensar “qual a relação entre a saúde, o SNS e os curandeiros (bruxos)”?

Por último, duvidamos das intenções ocultas por detrás desta aparente preocupação pela nossa saúde, quando é sobejamente conhecida a intenção de “destruir” o SNS.


Para mim – ao contrário do que pensa e escreveu no facebook Alexandra Solnado (de que “é um positivo sinal de evolução”...) – não considero como sendo um sinal positivo de evolução; todavia, reconheço que “acompanha a tendência destes novos tempos”: substituir o SNS por medidas alternativas, iludindo os utentes, beneficiários e, principalmente, os doentes, encurtando a sua esperança de vida, reduzindo os custos e favorecendo esta economia liberal desenfreada e irresponsável.

Se tinha dúvidas, já foram esclarecidas: Estamos a ser governados por medievos, que confundiam os curandeiros com os dentistas; e estes com os barbeiros. Qual a diferença…?


quinta-feira, 8 de maio de 2014

NÃO NOS DEIXEM SOZINHOS!



 (fonte)

Durante três dias milhares de pessoas despediram-se de Dom Tomás e assumiram continuar as causas que ele defendia e as lutas que ele apoiava.

“Não nos deixem sozinhos!” clamou uma indígena Krahô durante celebração no velório de Dom Tomás Balduino, falecido na última sexta-feira, 2 de Maio. O pedido dirigido sobretudo à Igreja, estende-se também aos amigos, amigas, militantes, admiradores e admiradoras de Dom Tomás.

Bispo da reforma agrária, dos indígenas, dos povos do campo e das florestas, dos pobres do Brasil e de toda a América Latina. Assim era conhecido e reconhecido. Para os amigos era, simplesmente, Tomás. De sorriso largo, cheio de simplicidade, Dom Tomás será sempre lembrado pela sua proximidade com os povos que o admiravam. As Igrejas, os povos indígenas e os camponeses fizeram cada um a seu jeito a sua despedida. A família, os amigos, a família dominicana da mesma forma o fizeram. Como foi a sua vida e caminhada, não poderia deixar de ser a sua despedida, plural e diversa, ecuménica e profética, forte e revolucionária.

Plantado na Catedral da Cidade de Goiás está seu corpo, pelo mundo continuará ressoando sua voz pela libertação do povo da terra, por justiça social e por uma sociedade mais justa e igualitária.

“Direitos humanos não se pede de joelhos, exige-se de pé!”

Assim proclamou Dom Tomás. Baptizado Paulo, escolheu por nome Tomás quando tornou-se religioso dominicano. Desde a década de 1950 actuava próximo dos povos indígenas e dos camponeses, quando foi nomeado superior da missão dos dominicanos na Prelazia de Conceição do Araguaia, no Pará. Sempre ávido por mais informações e conhecimento, decidiu estudar linguística indígena, em um curso na Universidade Nacional de Brasília (UNB), onde aprendeu a língua dos índios Xicrin, dos grupos Bacajá e Kayapó. Também diante da necessidade e das dificuldades em percorrer grandes extensões territoriais entre os estados do Pará, Mato Grosso e Goiás, fez curso de piloto aviador, e amigos italianos presentearam-no com um “teco-teco” vermelho. Avião esse que poderia contar inúmeras histórias sobre a seriedade e os cuidados de Dom Tomás ao pilotar, sobre as visitas às aldeias indígenas da Amazónia, algumas vezes levando médicos para cuidar da saúde dos índios, e sobre aqueles e aquelas cujas vidas Dom Tomás salvou ao tirá-los do alvo das ameaças da ditadura militar.

Apesar do delicado estado de sua saúde, a notícia de sua morte pegou a todos de surpresa. Pois até o fim manteve uma lucidez impressionante, pedindo inclusive aos que o cercavam apoio para redigir algumas contribuições que ele queria enviar para serem incorporadas no documento da terra em debate na 52ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, que ainda acontece em Aparecida (SP) da qual sonhava participar. Continuava a preocupar-se com o povo pobre, dizendo que precisávamos, também, ajudar os andarilhos e “moradores de rua” (os sem-abrigo) desse país. Povo muito sofrido, conforme as suas palavras. Deixava claro que ainda queria lutar, e que tinha muito a fazer e contribuir na busca de um mundo mais justo.

A tristeza da sua partida, que tomou conta de todos e todas que o conheceram, não foi maior que a certeza de que Dom Tomás viveu em plenitude e deixou muitos frutos.

As milhares de pessoas que passaram pelo velório e celebrações, na cidade de Goiânia, na Igreja São Judas Tadeu, da responsabilidade da família dominicana, entre os dias 3 e 4 de maio, e na cidade de Goiás, na tarde do dia 4 e manhã do dia 5 de maio, são provas disso. Dom Tomás foi recebido na cidade de Goiás por cerca de 40 indígenas das etnias Apinajé, Krahô, Krahô-Kanela, Xerente, Tapuia e Karajá, vindos dos estados do Tocantins e de Goiás. O corpo entrou na catedral de Nossa Senhora de Santana pelas mãos dos indígenas, que realizaram os rituais conforme seus costumes. O rosto de Dom Tomás recebeu a pintura de urucum e um grande cocar foi colocado no caixão, acima de sua cabeça.

Dom Tomás foi sepultado na catedral de Goiás, levando junto bandeiras dos movimentos sociais camponeses, de sindicatos e organizações que receberam o apoio de Dom Tomás. Ele era o mestre e inspirador das lutas, mas também sabia ser rígido e crítico quando era necessário. Da mesma forma o fez com governantes e partidos políticos, mesmo com aqueles que em algum momento apoiou, mas que em decorrência de sua actuação, ou da sua não actuação, achou por bem criticar e cobrar. Estendeu as mesmas críticas à Igreja, ou melhor, às igrejas, que se afastavam do compromisso evangélico de estar ao lado do povo pobre e injustiçado.

Dom Tomás continua vivo nas lutas do povo pobre da terra de todo o mundo. A sua voz ecoa no grito do camponês e do indígena que exigem terra para trabalhar e a preservação de seus territórios. Os seus ensinamentos continuam presentes nas Igrejas que promovem o povo oprimido. O seu coração continua a pulsar naqueles que se organizam, naqueles que lutam, nas fileiras em marcha por esse país, seguindo bandeiras de um mundo mais justo.

Temos vindo a conhecer o Papa Francisco. Ficámos a conhecer D. Tomás. Percebe-se agora as razões dos antigos ditadores da América Latina, sempre tão preocupados em “subornar” a cúria romana (e o papado), evitando conhecer-se o pulsar da verdadeira igreja revolucionária que despontava.


terça-feira, 6 de maio de 2014

COLBERT E MAZARIN, HOJE



Colbert ficou conhecido como ministro de Estado e da Economia do rei francês Luís XIV; Mazarin foi um estadista que – embora italiano e bispo – estava radicado em França, onde serviu como o primeiro-ministro (da França), no mesmo período e com o mesmo Chefe de Estado.
Hoje, num país próximo, temos fenómeno idêntico: um chefe de estado que, não sendo rei, age de forma idêntica à de Luís XIV (para pior); um primeiro-ministro que, não sendo bispo (mas, “troikano”), demonstra o mesmo respeito pelo povo que governa, como o seu homólogo na França de Luís XIV; e, por último, um ministro de Estado que “irrevogavelmente se demitiu” para se “guindar” à “vã glória” de ser vice-primeiro-ministro.
Prevendo novas medidas de austeridade que, naturalmente, irão prejudicar ainda mais a classe média, reparamos que, tanto no Século XVII, em França, como, presentemente em Portugal, todos tiveram uma preocupação enorme pelos seus “súbditos”…
Relembro o Diálogo entre Colbert e Mazarin durante o reinado de Luís XIV, retratado na peça teatral de Antoine Rault – Le Diable Rouge (no caso português, não seria “Le diable rouge”, mas tão somente “O DIABO”):
“Colbert – Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até o pescoço…
Mazarin – Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas, vai parar à prisão. Mas o Estado… é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se… Todos os Estados o fazem!
Colbert – Ah, sim? Mas como faremos isso, se já criámos todos os impostos imagináveis?
Mazarin – Criando outros.
Colbert – Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
Mazarin – Sim, é impossível.
Colbert – E sobre os ricos?
Mazarin – - Os ricos também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
Colbert – Então como faremos?
Mazarin – Colbert! Tu pensas como um queijo, um penico de doente! Há uma quantidade enorme de pessoas entre os ricos e os pobres: as que trabalham sonhando enriquecer, e temendo empobrecer. É sobre essas que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhes tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Formam um reservatório inesgotável. É a classe média!”

E é assim… Cada vez me convenço mais e reconheço que quem nos governa não é incompetente, não é inexperiente, não é fruto de um mau “casting”… Eles são mesmo aquilo que, em público e em alta voz, não ousamos chamar… e o que fazem é intencional…!