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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

DESCRUCIFICAR




O Papa Francisco foi confrontado por uma menina, no Vaticano, que o questionou porque, sendo papa, tendo direito a viver no luxo, a ter grandes e faustosos carros, a viver no máximo dos confortos […] o não fazia. Francisco respondeu-lhe: “já me fizeram essa pergunta; foi um professor que a fez. Eu respondi-lhe que isto era um problema do foro psiquiátrico…”.

Francisco, confrontado pelos jornalistas acerca do que pensava sobre os homossexuais frequentarem a Igreja, respondeu: “Quem sou eu para os julgar…?”

Mas, já é um quarto dos Cardeais que pretendem a sua condenação – excomunhão.

Frei Bento Domingues, no Público de 17 de Dezembro, escrevia:

“Jesus Cristo não desejou nem santificou a cruz. Alterou-lhe, porém, a significação de forma radical.”

E escreveu muito mais:
[…] hoje podemos acolher a graça da nossa transformação interior que nos associe, de forma activa, às mais diversas iniciativas sociais, culturais e políticas da construção de uma cultura da justiça e da paz, a nível local e global. O Espírito do Natal é Aquele que suscitou o canto subversivo de Maria de Nazaré.

As preocupações com as indispensáveis reformas das “cozinhas eclesiásticas” da Igreja, se não estiverem centradas no estilo da prática histórica de Jesus Cristo e nas urgências dos mais carenciados das nossas sociedades, acabam por nos fazer esquecer que somos nós, [ou que é] a Igreja, que precisamos de reforma permanente.

Frederico Lourenço — a grande figura portuguesa da cultura bíblica fora das sacristias — recorda-nos que os Evangelhos têm, ainda hoje, em 2017, o potencial para mudar o mundo para radicalmente melhor. Sublinha comovido: “Jesus Cristo, com as palavras que lhe são atribuídas nos quatro evangelhos, é a figura que mais me interessa. Continuo a achar que, independentemente de ele ter dito aquelas palavras ou não, elas são as coisas mais extraordinárias que foram ditas à face da terra. Por exemplo, quando leio para mim o Novo Testamento estou num mundo maravilhoso que é só meu e me preenche muito, animicamente, espiritualmente. Apesar de ser um linguista crítico-histórico, não sou um ateu a traduzir a Bíblia. Serei sempre, até ao último segundo da minha vida, um apaixonado por esse judeu chamado Jesus de Nazaré.”[1]

Muitos anos antes, numa entrevista de 1978, Eduardo Lourenço mostrou a verdade da nossa condição, na própria referência cristã: “Cristo é o momento (sem limite de tempo) em que a humanidade tomou forma humana. [...] Foi crucificado, não por querer ser deus, mas por ensinar o que era ser homem. Dois mil anos passaram sem que esquecêssemos nem aprendêssemos a lição.”[2]

Num belo livro, traduzido por José Sousa Monteiro, deparo com a confissão do marxista Milan Machovec: “O coração duma freira desconhecida que se dedica a uma criança incurável, só poderia ser substituída por uma teoria da história, por um estúpido e um idiota [...]. Pessoalmente, não me traria grande desgosto o facto de a religião acabar. Mas se tivesse de viver num mundo no qual Jesus fosse inteiramente esquecido, então preferia não continuar a viver”[3].

Como escreveu o dominicano E. Schillebeeckx, para Jesus, a história dos seres humanos é a narrativa de Deus acolhido ou recusado[4].

Para o imaginário do Evangelho de S. Lucas, a festa do nascimento de Jesus aconteceu num curral iluminado pela luz do céu, acompanhada pela música dos anjos e rodeado de pastores e estrangeiros. Tudo aconteceu à margem do Templo de Jerusalém e dos palácios imperiais. Aliás, Jesus com o comércio do Templo teve uma relação muito agreste e só conheceu os palácios quando estava a ser julgado e condenado à pena capital. A sua coroa foi de espinhos e o seu trono foi uma cruz.

Esta apresentação testemunha um profundo contraste, mas pode cair na perversão do próprio Evangelho de Cristo, sugerindo que Jesus veio sacrificar-se e semear mais sacrifícios no mundo. Porque será mantida a cruz como símbolo cristão, quando o que Jesus procurava era, precisamente, descrucificar?

A minha hipótese de interpretação é outra, bastante simples, mas que importa explicar. A cruz, a sentença de morte mais bárbara e cruel, fazia parte do mundo que Jesus queria mudar. Então, por que continua a funcionar como um símbolo cristão, quando ela é anti-humana, anticristã?

Ao contrário do que se repete há séculos, Jesus Cristo não desejou nem santificou a cruz. Alterou-lhe, porém, a significação de forma radical. Foi-lhe imposta, num julgamento iníquo, por ele recusar trair o seu projecto. Tornou-se, deste modo, o símbolo da fidelidade inquebrantável, o signo da extrema generosidade. A presença de sinais da cruz, desde o baptismo até à morte, diz que é preciso dizer não à crucifixão da vida e dizer sim à generosidade libertadora, no dia-a-dia.

Tudo isto vem confirmado no trecho do Evangelho escolhido para a celebração da […]: estava Jesus sentado junto ao mar da Galileia e uma grande multidão veio ter com ele e lançou-lhe, aos pés, coxos, aleijados, cegos, mudos e muitos outros[5].

Se o mestre fosse um pregador de sacrifícios dizia-lhes: estais mal? Ainda bem. Assim podeis santificar-vos e, um dia, sereis muito felizes no céu. [puro marketing]

Jesus não acreditava nessa mística. Curou-os e organizou, com pouca coisa, um grande banquete popular. A multidão ficou admirada ao ver os mudos a falar, os aleijados a ficar sãos, os coxos a andar, os cegos a ver e todos a comer até sobrar.

Poder-se-á dizer: porque não deixou a fórmula? Seria uma alternativa muito barata dos serviços de saúde, públicos e privados. Mas ele não veio para nos substituir.

Já na apresentação do seu programa, em Nazaré, ficou claro que o mundo tinha de começar mesmo a mudar. Deus não podia ser O da ira de Iavé, mas O da pura graça do amor. Diz a narrativa evangélica que, nesse momento, os seus conterrâneos o julgaram um subversivo e, por isso, quiseram acabar logo com ele[6].

Os seus comportamentos eram, de facto, estranhos: andava em más companhias, com quem comia e bebia, a ponto de lhe chamarem “comilão e beberrão”; aceitou o convívio de mulheres que não eram todas exemplos de virtude; violava, sistematicamente, o Sábado[7] — o dia mais sagrado da sua religião — com curas que bem podia fazer noutros dias[8].

Não deixou fórmulas ou receitas que pudessem ser transformadas em rituais. A sua prática é um desafio à imaginação de todos os homens e mulheres, de todos os tempos, a usarem os seus talentos, as suas capacidades, não para cavar distância entre ricos e pobres, mas para as eliminar, pois não suporta ver uns à porta e outros à mesa, uns em banquetes requintados e outros na miséria[9].

Será tudo isto do foro psiquiátrico?

A nossa vida vive-se agora…!





[1] Frederico Lourenço, Entrevista, in Ler, Outubro 2017, n.º 147
[2] Eduardo Lourenço, in Opção, n.º 97, pp. 2-8, Março 1978
[3] Cf. VV. AA., Os marxistas e Jesus, Iniciativas Editoriais, Lisboa 1976, pp. 88 e 98
[4] Edward Schillebeeckx, L’histoire des hommes, récit de Dieu, Cerf, Paris 1992
[5] Mt 15, 29-37
[6] Lc 4, 16-30
[7] Lc 7; 8; 13, 10-17
[8] Lc 7; 8; 13, 10-17
[9] Lc 16, 19-31

sábado, 6 de maio de 2017

INTOLERÂNCIA





Temos, cada vez mais, educadores do povo… intolerantes!

Critica-se o uso do véu islamita, mas condescende-se com o hábito das freiras. Há uma quantidade de gente – os especialistas da generalidade – conhecedora de todas as matérias; essas matérias poderão ir da simples discussão do materialismo dialéctico e ideológico à mais profunda análise teológica relativa a qualquer religião, mesmo sem a conhecer e sem saber ou respeitar o mais elementar princípio de consideração por quem nos rodeia. Conheça ou não os assuntos em discussão, têm sempre uma opinião a transmitir e uma verdade a defender – é sempre a oportunidade de opinarem.

Pior que um sofista, é um sofista intolerante.

Numa perspectiva de diálogo e respeito por quem connosco convive, deveríamos estar do lado de quem busca a verdade, e ter a humildade de quem quer saber e conhecer.

Quando, por um lado, nos confrontamos com religiões que estão em maioria, naturalmente aceitamo-las; se, pelo contrário, a religião se quedar por uma minoria, deveria haver, pelo menos, a intenção de respeitá-las.

Não pretendo perceber ou defender verdades religiosas “absolutas”, mas, tão-só, poder compreender as razões que eventualmente estarão por de trás de quem as segue. Não quero vestir a roupa de quem necessita de um rótulo de isenção (como aqueles que se afirmam agnósticos, para discutirem tendenciosamente a religião, imbuídos de aparente independência) e, por isso, não vou dizer se sou agnóstico, se sou ateu ou, simplesmente, se sou um confesso religioso.

Eis porque gostaria, na minha humilde ânsia de esclarecer e ser esclarecido, deixar à consideração o brilhante texto do Professor Dr. P.e Anselmo Borges, publicado, a 5 de Maio de 2017, no DN, que, sendo padre é acusado por muitos ateus, crentes e agnósticos de não se manifestar suficientemente “à altura daquela igreja tradicional e pré-conciliar”:

«1 - Um problema maior deste tempo são a pressa, a imediatidade, a fragmentação. Alguém pára para pensar, para verdadeiramente se informar, reflectir? Alguém lê livros? Sim, livros? Porque um livro, quando é bom, dá que pensar, e tem princípio e meio e fim e aberturas para lá dele e é preciso dialogar com ele e os seus pressupostos e os seus horizontes. Mesmo num jornal, lê-se a notícia toda ou só o título? Afinal, um dos grandes perigos de hoje é que se vive de flashes, de impressões, na vertigem de um tsunami de informações e opiniões dispersas, intoxicantes.

No passado dia 14 de Abril, o jornal Expresso titulava na primeira página: "É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima" (Anselmo Borges). E remetia para uma entrevista na página 22. É claro que quem só leu este título ficou enganado. É verdade que eu disse aquilo. Mas quem foi ler a entrevista? Quem leu encontrou o que é fundamental: a necessária distinção entre "aparição" e "visão": "Posso ser um bom católico e não acreditar em Fátima porque não é dogma. Não me repugna, contudo, que as crianças, os chamados três pastorinhos, tenham tido uma experiência religiosa, mas à maneira de crianças e dentro dos esquemas religiosos da altura. É preciso também distinguir aparições de visões. É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima. Uma aparição é algo objectivo. Uma experiência religiosa interior é outra realidade, é uma visão, o que não significa necessariamente um delírio, mas é subjectivo. É preciso fazer esta distinção."

Como já aqui expliquei, é evidente que Maria não apareceu fisicamente em Fátima, pois o crente na vida plena e eterna em Deus sabe que essa vida é uma nova criação, para lá do espaço e do tempo; não é segundo o modo da vida neste mundo. Mesmo a ressurreição de Jesus não é a reanimação do cadáver, é evidente, e, por isso, está para lá das manifestações físico-empíricas. Eu acredito na vida eterna e que Jesus está vivo em Deus. Como é? Ninguém sabe. As grandes experiências, as que decidem da vida e da morte e do sentido da existência e da história, são interiores. É neste dinamismo que estão as experiências da fé religiosa, mesmo se – a experiência nunca é pura, nua – se dão no quadro de esquemas, figuras e imagens interpretativos, segundo as situações, os tempos e os contextos. O referente – pólo objectivo – é sempre o mesmo: o Mistério, o Sagrado, Deus, Presença transcendente-imanente, que o crente – pólo subjectivo – experiencia como Fundamento e Fonte de salvação.

Percebe-se então que há experiências religiosas melhores e outras menos boas. E lá está na entrevista: “E por isso digo que é necessário evangelizar Fátima, ou seja, trazer uma notícia boa. Porque mesmo para aquelas crianças aquela não foi uma notícia boa: que mãe mostraria o inferno a uma criança?

2 - Qual é o núcleo da mensagem de Fátima? Em primeiro lugar, a oração. É uma grande mensagem? É. Para crentes e não crentes. Quem não precisa de rezar? Não necessariamente dizendo orações, embora os cristãos tenham a oração essencial que Jesus ensinou: “o pai-nosso”, onde está o núcleo da vida: a ligação à Transcendência, que é Amor; que o Reino de Deus venha: o Reino da verdade, da justiça, da dignidade livre e da liberdade na dignidade para todos e que lutemos por isso; a gratidão face ao milagre exaltante da Vida; o pão para todos; o milagre do perdão; a atenção ao essencial da vida, para se não cair na tentação da desgraça, do mal que fazemos a próprios e aos outros. A oração implica parar para escutar o silêncio e o que só no silêncio se pode ouvir: a voz da consciência e da dignidade, meditar, descer ao mais fundo de si, lá onde se encontra a ligação com a Fonte, donde tudo vem e onde tudo se religa e se faz a experiência do transtempo, para se poder viver no tempo sem se afundar na dispersão e no vazio.

A outra mensagem: “Fazei sacrifício e penitência.” E aquelas crianças até a pouca comida que tinham davam às ovelhas pela conversão dos pecadores.

Fátima precisa de ser evangelizada. Evangelho quer dizer notícia boa e felicitante, mas, frequentemente, como bem viu Nietzsche, o que se anunciou foi um Disangelho: uma notícia desgraçada e que arrastou consigo imensa infelicidade. No Evangelho segundo São Marcos, Jesus inicia a sua vida pública, proclamando: “Metanoiete”, cuja tradução normalmente é: “Fazei penitência”, mas realmente o que lá está é: mudai de mentalidade, de modo de pensar; portanto, mudai de vida, de mentalidade, de atitude, e acreditai no Evangelho. Jesus anunciava: “Ide aprender o que isto quer dizer: Deus não quer sacrifícios, mas justiça e misericórdia.” O que Jesus declarava era uma boa-nova: Deus é Amor, Fonte de vida, Liberdade criadora, que quer a vossa felicidade. “Não tenhais medo”, é outra palavra constante de Jesus. Mas, realmente, o que se pregou muitas vezes foi um deus da tristeza, do medo, do terror, chegando-se ao limite de pregar que Deus precisou da morte do próprio Filho para se reconciliar com a humanidade. Foi deste deus que Nietzsche proclamou a morte, porque perante um deus assim só se pode desejar que morra.

É completamente diferente o que está no Evangelho. Jesus não foi morto para aplacar a ira de Deus, Ele entregou-se à morte e morte de cruz para dar testemunho da Verdade e do Amor: o único interesse de Deus é que os homens e as mulheres, todos, sejam plenamente realizados e felizes. Esse é o sentido do sacrifício: não o sacrifício pelo sacrifício, mas o sacrifício que traz vida. O sacrifício pelo sacrifício não vale nada, mas, por outro lado, sem sacrifício, nada de grande, de verdadeiramente valioso, se realiza. “Mudai de mentalidade”: batei-vos pela vida, pela justiça, pela paz, pela felicidade, pelos direitos e pela dignidade divina de cada homem e de cada mulher, de todos. Sacrificai-vos por isso. É o que Deus quer e o que vale a pena. Para sempre.»




quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

AS RELIGIÕES E O TERRORISMO




Os principais conflitos do final do século XX e dos inícios do novo milénio possuem um transfundo religioso. Assim, na Irlanda, no Kosovo, em Cachemira, no Afeganistão, no Iraque e no novo Estado Islâmico, extremamente violento. Ficou claro em Paris com o assassinato dos cartunistas e outras pessoas por fundamentalistas islâmicos. Como nisso entra a religião?

Não sem razão escreveu Samiuel P. Huntington em seu conhecido livro O choque de civilizações: “No mundo moderno, a religião é uma força central, talvez a força central que motiva e mobiliza as pessoas….O que em última análise conta para as pessoas não é a ideologia política nem o interesse económico; mas aquilo com que as pessoas se identificam são as convicções religiosas, a família e os credos. É por estas coisas que elas combatem e até estão dispostas a dar a sua vida” (1997, p.79). Ele critica a política externa norte-americana por nunca ter dado o devido peso ao factor religioso, considerado algo passado e ultrapassado. Ledo engano. É o substrato dos mais graves conflitos que estamos vivendo.

Quer queiramos ou não, e não obstante o processo de secularização e o eclipse do sagrado, grande parte da humanidade orienta-se pela cosmovisão religiosa judaica, cristã, islâmica, xintoísta, budista e outras.

Como já afirmava Christopher Dawson (1889-1970), o grande historiador inglês das culturas: “as grandes religiões são os alicerces sobre as quais repousam as civilizações”(Dynamics of World History,1957,p.128). As religiões são o “point d’honneur” de uma cultura, pois através dela projecta os seus grandes sonhos, elabora os seus ditames éticos, confere um sentido à história e tem uma palavra a dizer sobre os fins últimos da vida e do universo. Somente a cultura moderna não produziu religião nenhuma. Encontrou substitutos com funções idolátricas, como a Razão, o progresso sem fim, o consumo ilimitado, acumulação sem limites e outros. A consequência foi denunciada por Nietzsche que proclamou a morte de Deus. Não que Deus tenha morrido, pois não seria Deus. É o facto de que os homens mataram Deus. Com isso queria significar que Deus não é mais ponto de referência para valores fundamentais, para uma coesão por cima entre os humanos. Os efeitos estamo-los a viver num nível planetário: uma humanidade sem rumo, uma solidão atroz e o sentimento de desenraizamento, sem saber para onde a história nos leva.

Se quisermos ter paz neste mundo precisamos resgatar o sentimento do sagrado, a dimensão espiritual da vida que estão nas origens das religiões. Na verdade, mais importante que as religiões é a espiritualidade que se apresenta como a dimensão do humano profundo. Mas a espiritualidade exterioriza-se sob a forma de religiões, cujo sentido é alimentar, sustentar e impregnar a vida de espiritualidade. Nem sempre o realiza porque quase todas as religiões, ao institucionalizarem-se, entram no jogo do poder, das hierarquias e podem assumir formas patológicas. Tudo o que é sadio pode ficar doente. Mas é pelo “sadio” que medimos as religiões, bem como as pessoas e não pelo “patológico”. E aí vemos que elas preenchem uma função insubstituível: a tentativa de dar um sentido último à vida e oferecer um quadro esperançoso da história.

Ocorre que hoje o fundamentalismo e o terrorismo, que são patologias religiosas, ganharam relevância. Em grande parte deve-se ao devastador processo de globalização (na verdade é ocidentalização do mundo) que passa por cima das diferenças, destrói identidades e impõe-lhes hábitos estranhos.

Geralmente, quando isso ocorre, os povos agarram-se àquelas instâncias que são os guardiães de sua identidade. É nas religiões que guardam as suas memórias e os seus melhores símbolos. Ao sentirem-se invadidos como no Iraque e no Afeganistão, com milhares de vítimas, refugiam-se em suas religiões como forma de resistência. Então a questão não é tanto religiosa. Ela é antes política que se serve da religião para se autodefender. A invasão gera raiva e vontade de vingança. O fundamentalismo e o terrorismo encontram nesse complexo de questões o seu nicho de origem. Daí os atentados do terror.

Como superar este impasse civilizacional? Fundamental é viver a ética da hospitalidade, dispor-se a dialogar e aprender com o diferente, viver a tolerância activa, sentir-se humano.

As religiões precisam reconhecer-se mutuamente, entrar em diálogo e buscar convergências mínimas que lhes permitem conviver pacificamente.

Antes de mais nada importa reconhecer o pluralismo religioso, de facto e de direito. A pluralidade deriva de uma correcta compreensão de Deus. Nenhuma religião pode pretender enquadrar o Mistério, a Fonte originária de todo ser ou qualquer nome que quisermos dar à Suprema Realidade, nas malhas de seu discurso e de seus ritos. Se assim fora, Deus seria um pedaço do mundo, na realidade, um ídolo. Ele está sempre mais além e sempre mais acima. Então, há espaço para outras expressões e outras formas de celebrá-lo que não seja exclusivamente através desta religião concreta.

Os onze primeiros capítulos do Génesis encerram uma grande lição. Neles não se fala de Israel como povo escolhido. Refere-se aos povos da Terra, todos como povos de Deus. Sobre eles paira o arco-íris da aliança divina. Esta mensagem recorda-nos ainda hoje que todos os povos, com as suas religiões e tradições, são povos de Deus, todos vivem na Terra, jardim de Deus e que formam a única Espécie Humana composta de muitas famílias com suas tradições, culturas e religiões.
Leonardo Boff [1]



sábado, 8 de fevereiro de 2014

DIREITOS DAS MINORIAS


  
O patriarca de Lisboa defende que os direitos das minorias devem ser referendados. D. Manuel Clemente concorda por isso que os portugueses se pronunciem sobre a adopção e co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo.

O patriarca de Lisboa destacou, na sexta-feira à noite na TVI (no programa “Política Mesmo”, a importância de um amplo debate sobre o assunto (mais um Hugo Soares…!).

D. Manuel Clemente considera que não está a discriminar ninguém ao defender que se deve tratar de “forma diferente o que é diferente”, isto é, como lhe convier e a seu belo prazer.



“O que está em questão não é o direito de adoptar, mas sim o direito de a criança ter um pai e uma mãe” (que hipócrita – “um pai e uma mãe”; o superior interesse da criança não conta…?), começou por dizer D. Manuel (até que ponto é diferente do outro Manuel – o Cerejeira?).
Para ele, não importa a segurança da criança.


“Com certeza que se devem fazer referendos sobre os direitos das minorias”, reza, ainda, D. Manuel Clemente.

Aí concordo e proponho já um referendo: Considerando que o clero é, cada vez mais, uma minoria na nossa sociedade, “Acabe-se já com o celibato do clero”.

D. Manuel Clemente tomou posse do cargo de Patriarca e fez a entrada solene no Patriarcado a 7 de Julho de 2013. Augurava-se para breve a sua elevação à dignidade cardinalícia, que era tida como certa.

A sua indigitação fora feita pelo então Papa Bento XVI, o célebre Cardeal Joseph Aloisius Ratzinger, outrora prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé que sempre soube calar as minorias que “o contrariavam” (como, por exemplo, Leonardo Boff, um dos expoentes da Teologia da Libertação…).

Era tida, quase como certa, a sua elevação à dignidade cardinalícia; mas não foi. O Papa Francisco já anunciou os novos cardeais e passará a ter como conselheiros homens de partes do mundo que raramente ou nunca foram representadas no Colégio. Eram minorias, foram escolhidos e não houve referendo…! 

Desta lista não faz parte Manuel Clemente.

Percebe-se bem porquê: O Papa Francisco tem o saber dos Jesuítas, a humildade dos Franciscanos, a força do Evangelho e a coragem da Fé. Se continuar como se tem afirmado até agora, pessoas como Manuel Clemente nunca serão Cardeais.

Este Papa, para o Manuel, é (in)Clemente…

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Papa Francisco e a despaganização do papado


Imperador Constantino conduz São Silvestre I a Roma, símbolo do triunfo da Igreja que passava a ser oficial e esplendorosa

As inovações nos hábitos e nos discursos do Papa Francisco abriram aguda crise nas hostes dos conservadores que seguiam estritamente as directrizes dos dois papas anteriores. Intolerável para eles foi o facto de ter recebido em audiência privada um dos fundadores da “condenadaTeologia da Libertação, o peruano Gustavo Gutiérrez. Sentem-se aturdidos com a sinceridade do Papa ao reconhecer erros da Igreja e de si próprio, ao denunciar o carreirismo de muitos prelados, chamando até de “lepra” o espírito cortesão e adulador de muitos no poder, os assim chamados “vaticanocêntricos”. O que realmente os escandaliza é a inversão que fez ao colocar em primeiro lugar, o amor, a misericórdia, a ternura, o diálogo com a modernidade e a tolerância para com as pessoas mesmo divorciadas, homoafectivas e não-crentes, e só a seguir as doutrinas e disciplinas eclesiásticas.

Já se fazem ouvir vozes dos mais radicais que pedem, para o “bem da Igreja” (a deles obviamente) orações nesse teor: “Senhor, ilumine-o ou elimine-o”. A eliminação de papas incómodos não é raridade na longa história do papado. Houve uma época entre os anos 900 e 1000, chamada de “idade pornocrática” do papado na qual quase todos os papas foram envenenados ou assassinados.

As críticas mais frequentes que circulam nas redes sociais destes grupos, historicamente antiquados e atrasados, vão na linha de acusar o actual Papa de estar dessacralizando a figura do papado até banalizando-o e secularizando-o. Na verdade, são ignorantes da história, reféns de uma tradição secular que pouco tem a ver com o Jesus histórico e com o estilo de vida dos Apóstolos. Mas tem tudo a ver com a lenta paganização e mundanização da Igreja no estilo dos imperadores romanos pagãos e dos príncipes renascentistas, muitos deles cardeais.

As portas para este processo foram abertas já com o imperador Constantino (274-337) que reconheceu o cristianismo e com Teodósio (379-395) que o oficializou como a única religião permitida no Império. Com a decadência do sistema imperial criaram-se as condições para que os bispos, especialmente o de Roma, assumissem funções de ordem e de mando. Isso ocorreu de forma clara com o Papa Leão I, o Grande (440-461), feito prefeito de Roma, para enfrentar a invasão dos hunos. Foi o primeiro a usar o nome de Papa, antes reservado só aos Imperadores. Ganhou mais força com o Papa Gregório, o Grande (540-604), também proclamado prefeito de Roma, culminando mais tarde com Gregório VII (1021-1085) que se arrogou o absoluto poder no campo religioso e no secular: talvez a maior revolução no campo da eclesiologia.

Os atuais hábitos imperiais, principescos e cortesãos da Hierarquia, dos Cardeais e dos Papas remetem-se especialmente ao Papa Silvestre (334-335). No seu tempo criou-se uma falsificação, chamada de “Doação de Constantino”, com o objectivo de fortalecer o poder papal. Segundo ela, o Imperador Constantino teria doado ao Papa a cidade de Roma e a parte ocidental do Império. Incluída nessa “doação”, desmascarada como falsa pelo Cardeal Nicalou de Cusa (1400-1460) estava o uso das insígnias e da indumentária imperial (a púrpura), o título de Papa, o báculo dourado, a cobertura dos ombros toda revestida de arminho e orlada com seda, a formação da corte e a residência em palácios.

Aqui está a origem dos atuais hábitos principescos e cortesãos da Cúria romana, da Hierarquia eclesiástica, dos Cardeais e especialmente do Papa. A sua origem é o estilo pagão dos imperadores romanos e a sumptuosidade dos príncipes renascentistas. Houve, pois, um processo de paganização e de mundanização da igreja como instituição hierárquica.
Os que querem o retorno à tradição ritual que cerca a figura do Papa nem sequer têm consciência deste processo historicamente datado. Insistem na volta de algo que não passa pelo crivo dos valores evangélicos e da prática de Jesus.

O que está a fazer o Papa Francisco? Está a restituir ao papado e a toda a Hierarquia o seu estilo verdadeiro, ligado à Tradição de Jesus e dos Apóstolos. Na realidade está voltando à tradição mais antiga, operando uma despaganização do papado dentro do espírito evangélico, vivido tão emblematicamente por seu inspirador São Francisco de Assis.

A autêntica Tradição está ao lado do Papa Francisco. Os tradicionalistas são apenas tradicionalistas e não tradicionais. Estão mais próximos do palácio de Herodes e de César Augusto do que da gruta de Belém e da casa do artesão de Nazaré. Contra eles está a prática de Jesus e as suas palavras sobre o despojamento, a simplicidade, a humildade e o poder como serviço e não como fazem os príncipes pagãos e “os grandes que subjugam e dominam: convosco não deve ser assim; o maior seja como o menor e quem manda, como quem serve”(Lc 22, 26).

O Papa Francisco fala a partir desta originária e mais antiga Tradição, a de Jesus e dos Apóstolos. Por isso desestabiliza os conservadores que ficaram sem argumentos.