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domingo, 15 de outubro de 2017

DA MINHA CORRESPONDÊNCIA COM O EDUARDO (9)














Meu caro amigo […]

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Não vou começar uma campanha de defesa de presumidos arguidos do processo “operação marquês”; porém, ainda a procissão iniciou a travessia do adro e já insuspeitas personalidades – entidades que seriam potenciais testemunhas do processo – negam as versões do MP, como é o caso de Sérvulo Correia, representante do Estado na Golden Share da PT, apesar do título do jornal Público indicar sentido diferente, na página 12.

Não tenho muitas esperanças de ver o fim deste julgamento. Ao arranjarem-se mais de quatro mil páginas para a dedução da acusação, é natural e normal que duzentas páginas depois de defender uma tese (escrita a várias mãos) já não se saiba a forma como se escreveu determinado assunto. Começam a aparecer as contradições notadas pelos observadores mais atentos por aqueles que ainda respeitam o sentido da democracia e do direito.

Uma coisa já eu sei: ao ser verdade (se fosse verdade) aquilo de que Sócrates é acusado, ele é um génio do crime. Estando num cargo dos mais escrutinados que pode haver – o de Primeiro Ministro –, conseguiu iludir todos e, sozinho, ludibriar toda a gente: encomendar, decidir, justificar, aprovar, despachar e receber os lucros…, isto tudo, sem que alguém desconfiasse. É de génio!

Olha, meu caro […] isto irrita-me; querem-me fazer passar por parvo...! Posso sê-lo, mas detesto que me forcem a esse convencimento. […]

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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

HÁ CINCO DIAS FORA DO MUNDO




O ex-primeiro-ministro, José Sócrates, ditou uma carta ao seu advogado, João Araújo, que foi divulgada esta quarta-feira à noite pela TSF e pelo Público.

Tal como José Sócrates, considero que as "fugas" de informação são crime. E, também, não espero que os jornais, a quem elas aproveitam e ocupam, denunciem o crime e o quanto ele põe em causa os ditames da lealdade processual e os princípios do processo justo.


Eis a carta:

«Há cinco dias "fora do mundo", tomo agora consciência de que, como é habitual, as imputações e as "circunstâncias" devidamente seleccionadas contra mim pela acusação ocupam os jornais e as televisões. Essas "fugas" de informação são crime. Contra a Justiça, é certo; mas também contra mim.

Não espero que os jornais, a quem elas aproveitam e ocupam, denunciem o crime e o quanto ele põe em causa os ditames da lealdade processual e os princípios do processo justo.

Por isso, será em legítima defesa que irei, conforme for entendendo, desmentir as falsidades lançadas sobre mim e responsabilizar os que as engendraram.

A minha detenção para interrogatório foi um abuso e o espectáculo montado, em torno dela, uma infâmia; as imputações que me são dirigidas são absurdas, injustas e infundamentadas; a decisão de me colocar em prisão preventiva é injustificada e constitui uma humilhação gratuita.

Aqui está toda uma lição de vida: aqui está o verdadeiro poder – de prender e de libertar. Mas, em contrapartida, não raro a prepotência atraiçoa o prepotente.

Defender-me-ei com as armas do Estado de Direito – são as únicas em que acredito. Este é um caso da Justiça e é com a Justiça Democrática que será resolvido.

Não tenho dúvidas que este caso tem, também, contornos políticos e sensibilizam-me as manifestações de solidariedade de tantos camaradas e amigos. Mas quero o que for político à margem deste debate. Este processo é comigo e só comigo. Qualquer envolvimento do Partido Socialista só me prejudicaria, prejudicaria o Partido e prejudicaria a Democracia.

Este processo só agora começou.

Évora, 26 de Novembro de 2014

José Sócrates»

* Sublinhados da minha responsabilidade