segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Que irão fazer no futuro?





[…]

Racismo e manifestações racistas são consideradas crime público.
Da entidade X à Y, do senhor(a) A ao B, do presidente da assembleia geral K ao presidente Z todos tomaram conhecimento da ignomínia racista que mais uma vez se estava a passar num campo de futebol. E, então…?!
Ah! Estavam lá os agentes da autoridade e os seguranças. Sim!? O que é que fizeram? Então, não é crime público…?!
Ah! A FIFA e a UEFA recomendam (proíbem) imagens de violência ou chocantes. Nada de pôr em risco a boa imagem desportiva, que não existe. Paga-se uma multa – e até é bom, pois enriquece os cofres –, mas o valor até é pequeno: meia dúzia de euros. Não penaliza.
Estou farto que se tape o Sol com a peneira. Isto tem sido nos estádios desportivos… e o resto, as constantes discriminações rácicas na sociedade portuguesa?!
Onde está o nosso grito de revolta?!!
Ficamos muito indignados quando vemos na imprensa estrangeira a constatação de que os portugueses são racistas. Eu fico muito indignado, não pelo que afirmam, mas porque é verdade. A brincar, a brincar manifestamos avulsas manifestações racistas. Isto é verdade.
Ontem conseguiram irritar-me!
Fico, todavia, com uma dúvida: que irão fazer…??

[…]


domingo, 19 de janeiro de 2020

A NOVA REFORMA






Não estou a converter-me ao cristianismo. Não! Talvez nunca tenha deixado de ser cristão, embora, não cumpridor. É assim que tenho acompanhado com elevado interesse o desenrolar dos alertas que o papa Francisco tem apregoado – talvez a “Nova Reforma” –, que só os conservadores, – temerosos de perder as suas prerrogativas totalitárias – a querem ignorar. O Próprio cardeal Ratzinger foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Enquanto tal, criou o deserto teológico na Igreja Católica. Até mesmo o “poema bíblico” Génesis, se assim se pode designar o primeiro livro da Bíblia, o que relata a criação do Universo.
Como escreve Bento Domingues, “o poema bíblico da criação, ao celebrar a vitória sobre o caos e ao exaltar a harmonia humana e divina do universo, é fundamental para não desesperarmos dos trabalhos que exige a sua urgente recriação” na casa de todos nós.
O recente livro do cardeal Sarah pretende considerar como co-autor o cardeal Ratzinger. Não me preocupa se é, ou não, verdade; se é mais uma apologia da misoginia religiosa… que contraria a doutrina do próprio fundador – Cristo.
O carisma do celibato não é, de si, o carisma de um padre ou de um bispo. Na Igreja Católica houve sempre mulheres e homens que optaram por viver o celibato como uma grande graça e é característica de todas as congregações religiosas”. Deveria ser, em princípio, uma opção pessoal. Do mesmo modo, todos os cristãos – pelo Baptismo – deveriam ser considerados sacerdotes…
O cardeal Ratzinger foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Enquanto tal, criou o deserto teológico na Igreja Católica. Queria ser o único. Foi eleito Papa e resignou porque já não se sentia com forças para enfrentar a poluição do Vaticano. Não é Papa emérito. Não é Papa, pura e simplesmente. Neste momento, não há dois papas. Não lhe fica bem alinhar com a campanha dos adversários das reformas urgentes propostas pelo único Papa actual, como diz Frei Bento Domingues.
Ratzinger não deve tentar refazer a Congregação para a Doutrina da Fé – eufemismo moderno para Tribunal do Santo Ofício ou para Santa Inquisição – porque isso seria recriar, mais uma vez, um crime ignóbil, ainda sentido no meio do catolicismo.
A reforma, quer queiram ou não, terá de se fazer.



sábado, 2 de novembro de 2019

A VANTAGEM DA IMPERFEIÇÃO


UM Hino à Liberdade é, para além do que escreve Leonardo Boff no texto seguinte, a vida do meu irmão mais velho, que hoje – 2 de Novembro – completa 75 anos.
Sempre foste livre; por vezes, incompreendido; mas eras e és autêntico.

Parabéns, Domingos!




«A VANTAGEM DA IMPERFEIÇÃO
Em tempos em risco de nossa liberdade, é importante pensarmos em sua importância. Nascemos completos mas imperfeitos. Não possuímos nenhum órgão especializado, como a maioria dos animais. Para sobreviver, temos que trabalhar e intervir na natureza. Os mitos esclarecem esta situação.
Os indígenas guaicuru, do Mato Grosso do Sul, perguntaram-se o porquê da imperfeição e do alto significado da liberdade. Demoraram longo tempo para chegar a uma resposta. A explicação veio pelo seguinte mito, portador de verdade.
O Grande Espírito criou todos os seres. Colocou grande cuidado na criação dos humanos. Cada grupo recebeu uma habilidade especial para sobreviver sem maiores dificuldades. A alguns deu a arte de cultivar a mandioca e o algodão. Assim podiam se alimentar e se vestir. A outros deu a habilidade de fazer canoas leves e o timbó. Desta forma podiam se locomover rapidamente e pescar.
Assim fez com todo os grupos humanos na medida em que se distribuíam pelo mundo. Mas com os Guaicuru não aconteceu assim. Quando quiseram sair para as vastas terras, o Grande Espírito não lhe conferiu nenhuma habilidade. Esperaram, suplicando, por muito tempo e nada lhes foi comunicado. Mesmo assim resolveram partir. Sentiram logo muita dificuldade em sobreviver. Resolveram procurar intermediários do Grande Espírito para receber também uma habilidade.
Primeiro, dirigiram-se ao vento, sempre soprando e rápido: “Tio vento, tu que sopras pelas campinas, sacodes as matas e passas por cima das montanhas, venha-nos socorrer”. Mas o vento que sacudiu as folhas, sequer ouviu o pedido dos guaicuru. Em seguida, se voltaram para o relâmpago que estremece toda a terra. “Tio relâmpago, você que é parecido com o Grande Espírito, ajude-nos”. Mas o relâmpago passou tão rápido que sequer escutou o pedido deles.
Assim os guaicuru suplicaram às árvores mais altas, aos cumes das montanhas, às águas correntes dos rios, sempre suplicando: “Meus irmãos, intercedam por nós junto ao Grande Espírito para não morrermos de fome,” Mas nada acontecia.
Meio desesperados vagavam por várias paragens. Até que pararam debaixo do ninho de um gavião-real.
Este ouvindo seus lamentos resolveu intervir e disse: “Vocês, guaicuru, estão todos errados e são uns grandes bobos”. “Como assim? responderam juntos. “O Grande Espírito se esqueceu de nós. Você que é feliz, recebeu o dom de um olhar penetrante e perceber um ratinho no boca da toca e caçá-lo”.
“Vocês não entenderam nada da lição do Grande Espírito”, retrucou o gavião-real. “A habilidade que ele lhes deu está acima de todas as outras. Ele vos deu a liberdade. Com ela vocês podem fazer o que desejarem fazer.”
Os guaicuru ficaram perplexos e cheios de curiosidade. Pediram ao gavião-real que lhes explicasse melhor esta curiosa habilidade. Ele, cheio de garbo, lhes falou: “Vocês podem caçar, pescar, construir ‘malocas’, fazer belas flechas, pintar os corpos, os potes, viajar para outros lugares e até decidirem o que vocês querem de bom para vocês e para a própria natureza”.
Os guaicuru se encheram de alegria e diziam uns aos outros: “que bobos nós fomos, pois nunca discutimos juntos a vantagem de sermos imperfeitos. O Grande Espírito nunca se esqueceu de nós. Deu-nos a melhor habilidade, de não estarmos presos a nada, mas de podermos inventar coisas novas, sabendo das vantagens de nossa imperfeição.
O cacique guaicuru perguntou ao gavião-real: “Posso experimentar a liberdade?” “Pode”. O cacique tomou uma flecha e derrubou do alto de uma jaqueira uma grande fruta de jaca. E todos se deliciaram.
Desde aquele momento, os guaicuru, exerceram a liberdade. Tornaram-se grandes cavaleiros e nunca puderam ser submetidos por nenhum outro povo. A liberdade lhes inspiravam novas formas de se defender e garantir a melhor habilidade dada pelo Grande Espírito.
Os mitos nos inspiram grandes lições, especialmente nos dias actuais quando forças poderosas, nacionais e internacionais, nos querem submeter, limitar e até tirar nossa liberdade. Devemos ser como os guaicuru: saber defender o maior dom que temos, a liberdade. Devemos resistir, nos indignar e nos rebelar. Só assim fazemos o nosso próprio caminho como nação soberana e altiva. E jamais aceitaremos que nos imponham o medo nem que nos roubem a liberdade.»


quinta-feira, 27 de junho de 2019

DAS MINHAS CONVERSAS POR E-MAIL (10)







Meu caro[…]

[…]

Hoje, fiquei, deveras, furioso com o pasquim que lemos habitualmente. Já não falo do escriba-chefe – Manuel Carvalho. Com este já não gasto os olhos, não perco tempo nem procuro compreender ou avaliar as suas fontes; sei que é ódio, vingança, justificações do “porque sim” e “ad hominum”.
Tento, tanto quanto possível, ignorar e evitar ler os escribas arregimentados pelo M. Carvalho. Aventuro-me, uma ou outra vez, a ler atravessado eventuais títulos dos apaniguados do Carvalho; e, na maioria das vezes, sem concluir.
Se te deres ao cuidado de cruzar informação relativamente à parangona do artigo da Leonete Botelho (até o nome respira falsidade), na página 9 do jornal Público de hoje, quarta-feira, sob o título “O terceiro país do mundo onde menos se acredita no Governo”, com aquela caixaO seu Governo age em função do interesse público? A sua voz conta em política? Questões colocadas pela Fundação Aliança de Democracias (Rasmussen Global) e pela Dalia Research em 50 países”…
Está descansado, não te maçarei muito, embora queira relembrar quem é a Fundação Aliança de Democracias (Rasmussen Global): A Aliança Social Democrática é um partido político da Islândia. O partido foi fundado em 1999, através da fusão de quatro partidos de centro-esquerda e esquerda, com o objectivo de criar um grande partido de centro-esquerda. (Fonte)
Ideologicamente, a Aliança segue uma linha social-democrata, defendendo a intervenção do Estado na economia e a nacionalização da gestão dos recursos naturais, além de, defender a integração da Islândia na União Europeia. Hoje, estes partidos dividem-se (dois a dois) entre Direita e Esquerda em alternância.
A Dalia Research é uma gestora de dados que comercializa justificações objectivas, como ela própria se define:
Every month, we ask millions of people across the world questions.
We do this to generate insights that help companies to improve their products, politicians to make better decisions, and academics to better understand human behavior.” Todos os meses, fazemos perguntas a milhões de pessoas em todo o mundo. Fazemos isso para gerar “insights” que ajudem as empresas a melhorar os seus produtos políticos a tomar decisões melhores e académicos, a entender melhor o comportamento humano. (Fonte).
Eles não definem estratégias – sugerem-nas.
Quere isto dizer que se limitam a gerir uma base de dados de perguntas cujas respostas poderão vir a ser utilizadas aleatoriamente pelos clientes.
Depois do que temos visto por cá em termos de sondagens, a confiança no Governo (que não no partido) anda por valores bastante mais invejados do que se pensa e que a Leonete Botelho apregoa.

[…]

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

DAS MINHAS CONVERSAS POR E-MAIL (9)











Sondagens do Brasil...


[…]

O que faz, por vezes, mover a humanidade? É isso mesmo que pensas. É a capacidade de sonhar, de, sem ser ingénuo, acreditar que é possível, que ainda é possível aos primários uma réstia de ponderação; acreditar que nos corações mais empedernidos poderá haver um pouco de atenção por quem necessita e, nos mais odiosos, restar uns pozinhos de amor.

Sei que parece uma dimensão poética inalcançável, mas quantas vezes não demos connosco a quase acreditar em milagres. Se não nos consideramos deterministas, principalmente na concretização das coisas boas, por que o fazemos se for ao contrário?

É isso mesmo, meu amigo marreta (como eu). Fiquei um pouco esperançado com a alteração das sondagens no Brasil. Não que tenham virado completamente…, mas já viraram o suficiente para termos o resquício de esperança que ocorre ao náufrago.

Faltam três dias…!

A sede de informação de muitas das pessoas que votaram em Bolsonaro, talvez despertasse a curiosidade de ver como é que a Europa e o resto do mundo pensavam sobre o Brasil e… sofreram o choque – o Brasil já não era respeitado! Estava na eminência de acabar!

Sem me iludir, quero crer que é possível acabar com a destruição do bom que já se fez; ou, então, já é a alucinação do fim da esperança… a aproximação da morte.

[…]



segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Acordo Ortográfico



Uns escudam-se com a unificação da língua – por causa dos PALOP. Outros argumentam que a razão de tal se deve aos brasileiros. Falso...

Tristeza!

Exemplo de Nei Leandro de Castro.

Já não basta perder a sua identidade; querem tirar-lhe a forma de se expressar, tal como a nós, portugueses.

Não nos tirem tudo; deixem-nos a alma – a língua.





quarta-feira, 25 de abril de 2018

25 DE ABRIL DE 2018





Quero tornar extensivo a todos vós os votos que fiz ao meu amigo Eduardo, hoje, 25 de Abril de 2018:

Parabéns, pela quota parte do que de bom fizeste, nestes últimos 44 anos.

Obrigado, por também teres contribuído na emancipação deste povo a que pertencemos.

Que contemos muitas mais celebrações do 25 de ABRIL, atentos e vigilantes, para que não haja mais atropelos à liberdade; que se reponham os parâmetros da justiça, enquadrada num novo paradigma da democracia – A verdade e a Transparência –; que a democracia seja genuína e respeitadora das vontades manifestadas, respeitando, sempre, as minorias resultantes e participativas.

Viva o 25 de Abril



quinta-feira, 5 de abril de 2018

Traição, por um simples prato de lentilhas…



Depois de ter desabafado este texto com o meu amigo Eduardo, resolvi fazê-lo, também, convosco.


[…]

Julgava que, depois da 2.ª Guerra Mundial e da inundação da América Latina por criminosos dessa guerra, a aprendizagem dos povos tinha sido eloquente, com consequente caça a tal gente. Percebeu-se que não poderiam ficar impunes.

Ao longo dos séculos, a aprendizagem dos povos fez-se pela dispersão da cultura dos povos, pela democratização, a alfabetização, a partilha cultural das diferentes sociedades. Assim foi com a Grécia e a Roma antigas, para quem a humanidade se voltou novamente depois de “mil anos de trevas” – com o Renascimento.

Também na América latina, os povos deixaram de estar dependentes daqueles que lhes indicavam o que lhes convinha. Iniciaram um processo de aprendizagem pelos seus próprios meios – já sabiam ler, já podiam aprender por si, tinham a partilha das experiências de libertação, que só a cultura dá, e seguiram o exemplo e a liderança dos seus pares.

Foi assim que se libertaram dos Pinochet, Castelo Branco, Costa e Silva, Videla, Viola, Fulgencio Batista e tantos mais que abundavam o Sul daquele continente.



Todavia, passado algum tempo, depois dos vencidos terem recuperado, sempre que punham em risco o exercício do poder dos EUA e do que estaria predefinido para aquelas paragens, por parte dos presidentes em exercício no Norte, algo corria mal.

Pugnava-se pelo exercício de uma “real e autêntica democracia”, só com um senão – tinham que saber interpretar e cumprir as determinações do dono da democracia, através dos seus “braços armados”. As múltiplas Agências do poder americano, tão bem representadas pelo seu actual líder, dominavam a divulgação das suas “beneméritas” e “altruístas” actividades, através das infindas séries televisivas.

Assim tem sido a propagação “cultural” do Norte – uma nova dinamização cultural… baseada na Tv.
Voltando à cultura autêntica, que é fruto das realizações dos povos, apercebemo-nos de quão frágil é a nossa preparação para resistirmos ao controlo da sua disseminação facciosa e tendenciosa; esta, sim, uma autêntica catequização do novo mal. Para tal, bastou um paciente trabalho de sapa para congregar em sua volta a arma mais poderosa que, até então, os poderia enfrentar e denunciar – a comunicação social. Conseguiram-no!

Não, não foi pela corrupção – que, a isto não chamamos corrupção –, chamaremos de traição: venderam-se e continuam a vender-se por um prato de lentilhas.



[…]


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Não ao AO90











I
niciativa Legislativa de Cidadãos 



Faltam poucas assinaturas para atingir as 20.000 necessárias para uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico possa entrar na Assembleia da República.

Eu já assinei. Quem o queira fazer, é fácil: basta subscrever “online”, aqui:






terça-feira, 26 de dezembro de 2017

DESCRUCIFICAR




O Papa Francisco foi confrontado por uma menina, no Vaticano, que o questionou porque, sendo papa, tendo direito a viver no luxo, a ter grandes e faustosos carros, a viver no máximo dos confortos […] o não fazia. Francisco respondeu-lhe: “já me fizeram essa pergunta; foi um professor que a fez. Eu respondi-lhe que isto era um problema do foro psiquiátrico…”.

Francisco, confrontado pelos jornalistas acerca do que pensava sobre os homossexuais frequentarem a Igreja, respondeu: “Quem sou eu para os julgar…?”

Mas, já é um quarto dos Cardeais que pretendem a sua condenação – excomunhão.

Frei Bento Domingues, no Público de 17 de Dezembro, escrevia:

“Jesus Cristo não desejou nem santificou a cruz. Alterou-lhe, porém, a significação de forma radical.”

E escreveu muito mais:
[…] hoje podemos acolher a graça da nossa transformação interior que nos associe, de forma activa, às mais diversas iniciativas sociais, culturais e políticas da construção de uma cultura da justiça e da paz, a nível local e global. O Espírito do Natal é Aquele que suscitou o canto subversivo de Maria de Nazaré.

As preocupações com as indispensáveis reformas das “cozinhas eclesiásticas” da Igreja, se não estiverem centradas no estilo da prática histórica de Jesus Cristo e nas urgências dos mais carenciados das nossas sociedades, acabam por nos fazer esquecer que somos nós, [ou que é] a Igreja, que precisamos de reforma permanente.

Frederico Lourenço — a grande figura portuguesa da cultura bíblica fora das sacristias — recorda-nos que os Evangelhos têm, ainda hoje, em 2017, o potencial para mudar o mundo para radicalmente melhor. Sublinha comovido: “Jesus Cristo, com as palavras que lhe são atribuídas nos quatro evangelhos, é a figura que mais me interessa. Continuo a achar que, independentemente de ele ter dito aquelas palavras ou não, elas são as coisas mais extraordinárias que foram ditas à face da terra. Por exemplo, quando leio para mim o Novo Testamento estou num mundo maravilhoso que é só meu e me preenche muito, animicamente, espiritualmente. Apesar de ser um linguista crítico-histórico, não sou um ateu a traduzir a Bíblia. Serei sempre, até ao último segundo da minha vida, um apaixonado por esse judeu chamado Jesus de Nazaré.”[1]

Muitos anos antes, numa entrevista de 1978, Eduardo Lourenço mostrou a verdade da nossa condição, na própria referência cristã: “Cristo é o momento (sem limite de tempo) em que a humanidade tomou forma humana. [...] Foi crucificado, não por querer ser deus, mas por ensinar o que era ser homem. Dois mil anos passaram sem que esquecêssemos nem aprendêssemos a lição.”[2]

Num belo livro, traduzido por José Sousa Monteiro, deparo com a confissão do marxista Milan Machovec: “O coração duma freira desconhecida que se dedica a uma criança incurável, só poderia ser substituída por uma teoria da história, por um estúpido e um idiota [...]. Pessoalmente, não me traria grande desgosto o facto de a religião acabar. Mas se tivesse de viver num mundo no qual Jesus fosse inteiramente esquecido, então preferia não continuar a viver”[3].

Como escreveu o dominicano E. Schillebeeckx, para Jesus, a história dos seres humanos é a narrativa de Deus acolhido ou recusado[4].

Para o imaginário do Evangelho de S. Lucas, a festa do nascimento de Jesus aconteceu num curral iluminado pela luz do céu, acompanhada pela música dos anjos e rodeado de pastores e estrangeiros. Tudo aconteceu à margem do Templo de Jerusalém e dos palácios imperiais. Aliás, Jesus com o comércio do Templo teve uma relação muito agreste e só conheceu os palácios quando estava a ser julgado e condenado à pena capital. A sua coroa foi de espinhos e o seu trono foi uma cruz.

Esta apresentação testemunha um profundo contraste, mas pode cair na perversão do próprio Evangelho de Cristo, sugerindo que Jesus veio sacrificar-se e semear mais sacrifícios no mundo. Porque será mantida a cruz como símbolo cristão, quando o que Jesus procurava era, precisamente, descrucificar?

A minha hipótese de interpretação é outra, bastante simples, mas que importa explicar. A cruz, a sentença de morte mais bárbara e cruel, fazia parte do mundo que Jesus queria mudar. Então, por que continua a funcionar como um símbolo cristão, quando ela é anti-humana, anticristã?

Ao contrário do que se repete há séculos, Jesus Cristo não desejou nem santificou a cruz. Alterou-lhe, porém, a significação de forma radical. Foi-lhe imposta, num julgamento iníquo, por ele recusar trair o seu projecto. Tornou-se, deste modo, o símbolo da fidelidade inquebrantável, o signo da extrema generosidade. A presença de sinais da cruz, desde o baptismo até à morte, diz que é preciso dizer não à crucifixão da vida e dizer sim à generosidade libertadora, no dia-a-dia.

Tudo isto vem confirmado no trecho do Evangelho escolhido para a celebração da […]: estava Jesus sentado junto ao mar da Galileia e uma grande multidão veio ter com ele e lançou-lhe, aos pés, coxos, aleijados, cegos, mudos e muitos outros[5].

Se o mestre fosse um pregador de sacrifícios dizia-lhes: estais mal? Ainda bem. Assim podeis santificar-vos e, um dia, sereis muito felizes no céu. [puro marketing]

Jesus não acreditava nessa mística. Curou-os e organizou, com pouca coisa, um grande banquete popular. A multidão ficou admirada ao ver os mudos a falar, os aleijados a ficar sãos, os coxos a andar, os cegos a ver e todos a comer até sobrar.

Poder-se-á dizer: porque não deixou a fórmula? Seria uma alternativa muito barata dos serviços de saúde, públicos e privados. Mas ele não veio para nos substituir.

Já na apresentação do seu programa, em Nazaré, ficou claro que o mundo tinha de começar mesmo a mudar. Deus não podia ser O da ira de Iavé, mas O da pura graça do amor. Diz a narrativa evangélica que, nesse momento, os seus conterrâneos o julgaram um subversivo e, por isso, quiseram acabar logo com ele[6].

Os seus comportamentos eram, de facto, estranhos: andava em más companhias, com quem comia e bebia, a ponto de lhe chamarem “comilão e beberrão”; aceitou o convívio de mulheres que não eram todas exemplos de virtude; violava, sistematicamente, o Sábado[7] — o dia mais sagrado da sua religião — com curas que bem podia fazer noutros dias[8].

Não deixou fórmulas ou receitas que pudessem ser transformadas em rituais. A sua prática é um desafio à imaginação de todos os homens e mulheres, de todos os tempos, a usarem os seus talentos, as suas capacidades, não para cavar distância entre ricos e pobres, mas para as eliminar, pois não suporta ver uns à porta e outros à mesa, uns em banquetes requintados e outros na miséria[9].

Será tudo isto do foro psiquiátrico?

A nossa vida vive-se agora…!





[1] Frederico Lourenço, Entrevista, in Ler, Outubro 2017, n.º 147
[2] Eduardo Lourenço, in Opção, n.º 97, pp. 2-8, Março 1978
[3] Cf. VV. AA., Os marxistas e Jesus, Iniciativas Editoriais, Lisboa 1976, pp. 88 e 98
[4] Edward Schillebeeckx, L’histoire des hommes, récit de Dieu, Cerf, Paris 1992
[5] Mt 15, 29-37
[6] Lc 4, 16-30
[7] Lc 7; 8; 13, 10-17
[8] Lc 7; 8; 13, 10-17
[9] Lc 16, 19-31

domingo, 15 de outubro de 2017

DA MINHA CORRESPONDÊNCIA COM O EDUARDO (9)














Meu caro amigo […]

[…]

Não vou começar uma campanha de defesa de presumidos arguidos do processo “operação marquês”; porém, ainda a procissão iniciou a travessia do adro e já insuspeitas personalidades – entidades que seriam potenciais testemunhas do processo – negam as versões do MP, como é o caso de Sérvulo Correia, representante do Estado na Golden Share da PT, apesar do título do jornal Público indicar sentido diferente, na página 12.

Não tenho muitas esperanças de ver o fim deste julgamento. Ao arranjarem-se mais de quatro mil páginas para a dedução da acusação, é natural e normal que duzentas páginas depois de defender uma tese (escrita a várias mãos) já não se saiba a forma como se escreveu determinado assunto. Começam a aparecer as contradições notadas pelos observadores mais atentos por aqueles que ainda respeitam o sentido da democracia e do direito.

Uma coisa já eu sei: ao ser verdade (se fosse verdade) aquilo de que Sócrates é acusado, ele é um génio do crime. Estando num cargo dos mais escrutinados que pode haver – o de Primeiro Ministro –, conseguiu iludir todos e, sozinho, ludibriar toda a gente: encomendar, decidir, justificar, aprovar, despachar e receber os lucros…, isto tudo, sem que alguém desconfiasse. É de génio!

Olha, meu caro […] isto irrita-me; querem-me fazer passar por parvo...! Posso sê-lo, mas detesto que me forcem a esse convencimento. […]

[…]



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

ERNESTO “CHE” GUEVARA




Completam-se, hoje, 9 de Outubro, 50 anos que Che Guevara foi assassinado na Bolívia.


A história não o esquece!


domingo, 24 de setembro de 2017

Um Deus distraído?



Depois de ler, não pude deixar de partilhar este brilhante texto de Frei Bento Domingues, publicado no “Público” de 24 de Setembro de 2017.






Frei Bento Domingues, O.P., de seu nome Basílio de Jesus Gonçalves Domingues, é um religioso da Ordem dos Pregadores, por muitos considerado como um dos maiores teólogos portugueses.
Nasceu a 13 de Agosto de 1934 (83 anos).





«
Não é a um Deus distraído que o Papa Francisco reza. Reza para diminuir o mundo dos distraídos.


1. Não têm conta as vezes que me fizeram, e fazem, a pergunta do título desta crónica. Sei que não tenho o exclusivo.
Não escondo que me divertem as pessoas religiosas e teólogas que dão a ideia – pelo que dizem e escrevem, pelo que aconselham ou mandam – que conhecem a vontade de Deus e os seus misteriosos caminhos. A tudo dizem: foi a vontade de Deus, mesmo quando essa expressão, pretensamente piedosa, é o pior insulto que Lhe podem fazer.
Por outro lado, são, por vezes, as mesmas pessoas que, pelas suas repetidas e abundantes orações, supõem que Deus ande mal-informado. As chamadas orações dos fiéis nas Celebrações Eucarísticas, mais ou menos gemidas, tentam lembrar a Jesus a sua responsabilidade pela péssima situação mundial.
Parece que todas as religiões, ou a maioria, têm fórmulas e livros de orações. Basta ir ao Google e, a partir da palavra oração, podemos ficar minimamente referenciados acerca desse mundo, ora sublime ora ridículo.
A nossa ligação fervorosa a Deus deveria estar atenta à nossa radical ignorância. Nunca me posso esquecer que S. Tomás de Aquino, depois de expor a sua epistemologia teológica e de apresentar as razões que tinha para afirmar que Deus existe, empenhou-se em mostrar, imediatamente, que não podemos saber como é Deus. A teologia dele é, sobretudo, uma luta contra as idolatrias que se insinuam em todas as atitudes e discursos religiosos.
Julgo que a religião – embora seja uma palavra de origem latina – nasce da consciência, mais ou menos explicita, do ser humano como realidade limitada. Precisa do outro para nascer, para crescer, para viver e para morrer. Não é auto-suficiente. É, por natureza, carente de cultura e de afectos. É uma realidade em permanente processo. Vai sendo através dos mil contactos cultivados ao longo da vida. É, estruturalmente, um ser aberto. Neste mundo multicultural e multirreligioso desenvolve-se bem ou mal, na recusa ou na aceitação. Quando se fecha aos outros, perde-se e afoga-se em si mesmo.
As boas relações humanas são as de acolhimento e cooperação. As más são as de dominação psicológica, económica, política e religiosa. Por isso, a pergunta mais sagrada, mais religiosa, em todas as situações, talvez seja esta: em que posso ajudar?
Não é por acaso que a primeira grande pergunta que Deus faz, logo no Génesis [1], seja esta: que fizeste ao teu irmão, e seja também a última que julgará a nossa história, segundo o Evangelho de S. Mateus [2].
Mas, então, devemos ou não rezar?

2. Não faltam, mesmo no Novo Testamento, recomendações de que devemos rezar sempre e em toda a parte. Não de qualquer maneira. Nem foi a primeira preocupação de Jesus. Consta, no Evangelho de S. Lucas, que os discípulos se sentiam um grupo um bocado abandonado, nesse aspecto. “Estando [Jesus] num certo lugar a rezar, ao terminar, um dos seus discípulos pediu-lhe: Senhor, ensina-nos a orar como João ensinou aos seus discípulos.” [3] Daí, resultou uma longa conversa e uma parábola que termina de forma paradoxal: a única coisa garantida é que o Pai dos Céus dará o seu Espírito aos que o pedirem. S. Mateus põe na boca de Jesus a recomendação: “Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como fazem os gentios, porque entendem que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles, porque o vosso Pai sabe do que tendes necessidade, antes de lho pedirdes.” De facto, deixou-nos apenas pistas muito gerais, no Pai-Nosso [4].
Estas indicações básicas atribuídas a Jesus deveriam merecer mais atenção. A Liturgia das Horas, rezadas em coro em muitas congregações religiosas, serve-se da recitação dos Salmos do Antigo Testamento. É precisa uma grande dose de paciência para aguentar a divisão entre o povo de Deus e os outros povos que não sabemos de quem são, geralmente inimigos. Esse Deus tem o encargo de defender e ajudar o seu povo e de atacar os outros povos. É um mundo pouco edificante de amigos e inimigos. É preciso, depois de Jesus Cristo, estar sempre a fazer descontos na oração.
Fazem parte de cenários em que se põe na boca do Senhor, Deus de Israel, uma narrativa na qual, depois de muitas bem-feitorias ao seu povo, que, finalmente, atravessou o Jordão e chegou a Jericó, faz esta declaração fantástica, coroa de muitas outras: “Combateram contra vós os que dominavam a cidade – os amorreus e os perezeus, os cananeus e os ititas, os girgasitas, os hevitas e os jebuseus – mas Eu entreguei-os nas vossas mãos. [...] Não foi com a vossa espada nem com o vosso arco que tudo isto foi feito. Dei-vos uma terra que não cultivastes, cidades que não construístes e onde agora habitais, vinhas e olivais que não plantastes e de que vos alimentais.” [5]
Pode um cristão rezar a um Deus destes?

3. Anda o Papa Francisco a dizer que não se pode matar em nome de Deus e, depois, louvá-Lo por ser um terrorista, porque eterno é o seu amor?
O diálogo inter-religioso, para não ser um teatro de mau-gosto, deve incluir a crítica das expressões religiosas que ofendem a Divindade maltratando os seres humanos.
Em Assis, já diversas vezes, os representantes de diferentes religiões foram rezar juntos. Nenhum tem o direito de criticar a forma de rezar dos outros, mas todos se deveriam sentir responsabilizados a contribuir, no âmbito da sua religião, para reverem as respectivas formas de rezar.
Por outro lado, se o ser humano é religioso pela interpretação que faz do seu limite, tem de cuidar de não transpor para Deus a sua responsabilidade. Quando se diz, de forma metafórica, que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, isso significa que o ser humano, por ser livre, é responsável pelo seu mundo, pela casa comum.
O Papa Francisco não se cansa de repetir que já estamos, de modo fragmentado, na terceira guerra mundial. Existem sistemas económicos que devem fazer a guerra para sobreviver. Ao fabricar e vender armas sacrificam, nos balanços económicos, o ser humano no altar do deus dinheiro.
Gosto da sua forma de rezar: Queridas irmãs e irmãos, eleva-se de todos os lugares da terra, de cada povo, de cada coração e dos movimentos populares, o grito da paz: guerra, nunca mais! [6]
Não é a um Deus distraído que ele reza. Reza para diminuir o mundo dos distraídos.

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[1] Gn 4, 1-15
[2] Mt 25, 31-46
[3] Lc 11, 1-13
[4] Mt 6, 5-15
[5] Cf. Js 24, 1-13
[6] Politique et société, du Pape François (Rencontres avec Dominique Wolton), Editions de L’Observatoire/Humensis, 2017, p. 11.
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sábado, 12 de agosto de 2017

DAS MINHAS CONVERSAS POR E-MAIL (8)




[…]

Ao passar os olhos pelas páginas do Público, antes de o ler com mais atenção, os meus olhos quedaram-se na página 42 no anúncio do livro de John Locke – Dois tratados do governo civil.

Foi o suficiente para pôr a minha imaginação a trabalhar e fazer ressurgir a minha revolta surda.

Passados quase três séculos, depois de múltiplas revoluções e contra-revoluções na área social e dos direitos humanos, de se discutir Karl Marx e Hengel, sem que, na maioria das vezes, tenham lido algo deles, de se opinar sobre os direitos sociais, sem saber nada do que isto representa, de apelarem aos grandes marcos da sociedade livre – a revolução americana, a revolução francesa, a revolução soviética (desvirtuada rapidamente) e da própria revolução de Abril de 1974 – sem se importarem pelas suas géneses, não vou estranhar que pouco se saiba sobre John Locke.

E, foi assim, que percebi: se a maior e mais antiga democracia do mundo, pelo menos na visão mais moderna de democracia elege uma figura tão asna, iliterata e desrespeitosa dos mais elementares direitos humanos, como se poderia saber que Locke escrevera o primeiro tratado como refutação ao pensamento absolutista e do direito hereditário de Robert Filmer, em Patriarche?

Mais, ainda, quando em pleno século XXI, o servilismo do poder absoluto e das benesses atribuídas aos seus lacaios consente o exercício “político” de um homem que ignora os mais elementares princípios de Equidade, Justiça e Liberdade – Donald Trump –, pondo em risco o equilíbrio social da Humanidade? […]

[…]



quarta-feira, 26 de julho de 2017

DESAPARECEU OU ESTÁ A PREPARAR ALGUMA…




Mandem os fuzileiros procurar Passos Coelho

Passos Coelho desapareceu, deixou de se ver desde que foi beber ponchas na Madeira e a bezana lhe deu para dizer que o PSD era o partido mais português e que na hora das decisões caramba que só ele as sabia tomar. Desde então apareceu a Teresa Morais a inventar mortos e o Hugo Soares a dizer que o armário de Costa estava cheio de cadáveres não contabilizados como vítimas do Estado gerido pela geringonça.

Como Passos não apareceu ainda com os burrinhos na areia da Manta Rota e, tanto quanto se sabe, ainda não foi andar por aí, há forte motivos de que tenha ido em busca de cadáveres perdidos ou de suicidas pendurados nas árvores em consequência da ausência de António Costa. Com tantos incêndios é possível que o desgraçado tenha sido ele próprio uma das vítimas por contabilizar e só isso explica que tenha desaparecido, entregando o partido ao cuidado daquele senhor com umas faces tão rosadas e uma linguagem tão primária, que faz lembrar um taberneiro.

Não, Passos não desapareceu, é uma pena, mas deve estar bem de saúde. O que Passos está fazendo é algo tão sinistro como inventar vítimas de suicídios. Ainda que não seja grande coisa a experiência de governante deve ter sido suficiente para saber que a investigação não é competência do governo e se mandou a Teresa ou o taberneiro falar de listas de mortos foi apenas para enganar o país. É por isso que anda desaparecido, para não dar a cara pela manobra suja que promoveu.

Aquilo a que o país tem assistido é a manobra política mais suja e asquerosa a que o país assistiu, foi Passos Coelho que a concebeu, que a tem dirigido e é por isso que tem estes desaparecimentos intermitentes, para que a sua imagem não fique associada ao oportunismo sem limite, ao aproveitamento político do sofrimento alheio e ao deseja descarado de que se multipliquem as vítimas e os incêndios. Não é a primeira vez que um incêndio ajudou um canalha a chegar ao poder.

Nunca o PSD desceu tão baixo, ninguém vê Passos Coelho e a sua equipa dar qualquer apoio, mostrar o mais pequeno sentido de Estado. Eles não aparecem na desgraça para motivar os bombeiros, para confortar as populações. Passos aparece quando tudo passou para cobrar votos, para cobrar pelo sofrimento alheio.

É por isso que desaparece de vez em quando, enquanto manda a Teresa e o taberneiro fazer o papel triste aguarda por mais uma qualquer desgraça, que ocorra mais um roubo, que uma qualquer maluca em busca de “algo” apareça a inventar mortos, que um oportunista sem escrúpulos de uma qualquer Santa Casa lhe diga que sabe de suicídios. Há os que bem ou mal combatem os incêndios e dão a cara junto de quem sofre e há os que estão no conforto da sua escassa esperando que a desgraça alheia os ajude nas eleições.”




terça-feira, 18 de julho de 2017

DAS MINHAS CONVERSAS POR E-MAIL (7)



[…] quero mostrar-te um pequeno vídeo que gravei, ontem, do Jornal da Tarde da RTP 1.

Tenho que me revoltar, só não sei contra quem; isto é: não sei se hei-de responsabilizar o ensino nas nossas escolas – que não preparam correcta e conveniente os futuros profissionais de informação –, se, mais uma vez, responsabilizar os “manda-chuvas” dos órgãos de comunicação por fazerem com que os seus profissionais usem terminologia alimentadora da abundante iliteracia deste nosso povo.

A pergunta que faço é (cerca dos 19 segundos de vídeo) o que entende a “jornalista” por “latifúndio”?

Não é, certamente, o mesmo que eu e do que consta nos nossos dicionários. Latifúndio é uma propriedade rural de grande dimensão (geralmente de pouco rendimento), e o problema do interior montanhoso é a floresta e o minifúndio.

Não me vou alargar mais... é triste a impreparação dos jovens jornalistas; é alarmante.

É certo que têm de praticar para atingirem o caminho da excelência. O que quero referir, também, e principalmente, é a falta de responsabilidade dos orientadores dos estágios e dos interesses pouco confessáveis dos gestores – administração, directores, editores, etc.

[…]




quinta-feira, 22 de junho de 2017

VALE TUDO



Para quem ainda não acredita na manipulação da informação.
Contributo para compreender a ética deontológica do jornalismo em Portugal.

Percebe-se, agora, como se consegue ter no ar, durante mais de uma hora, jornalistas e comentadores a falar da queda de um avião, sem sequer confirmarem o desastre. A sede de sangue é tanta que nem se confirma a origem ou a veracidade da notícia.

Qual o objectivo?




«Nos últimos dias, à semelhança de toda a imprensa espanhola, o El Mundo (Espanha) tem publicado inúmeras notícias sobre o incêndio de Pedrógão Grande. Mas ao contrário da generalidade dos jornais, como o El Pais e outros que o têm feito de forma neutra, o El Mundo tem publicado textos, sem excepção, que demonstram uma orientação claramente anti-governamental e que procuram atribuir responsabilidades a António Costa, Ministros e autoridades portuguesas.

Alguns exemplos: “Caos no maior incêndio da história de Portugal: 64 mortos, um avião-fantasma e 27 aldeias evacuadas.”, “gestão desastrosa da tragédia”, "A evidente falta de coordenação entre as autoridades, provocou uma enxurrada de críticas à gestão do desastre por parte do Governo do primeiro-ministro António Costa, e em particular da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, a menos de quatro meses das eleições legislativas.”

O caso atinge mesmo proporções políticas colossais. Não só é sugerido que o caso pode fazer cair ministros e até todo o governo, sugere ainda que pode mesmo “pôr fim à carreira política de António Costa.” É este o clima que o El Mundo diz que se vive em Portugal.

A torrente de notícias duras e o tom crítico não tardaram a chegar a Portugal, e a imprensa portuguesa, na sua maioria, deu eco às críticas do El Mundo: Sábado, SIC Notícias, Jornal Económico, Observador, Expresso, Correio da Manhã são exemplos de órgãos que foram publicando notícias sobre aquelas notícias. Casos destes são frequentes: recorrer à imprensa internacional para validar posições sobre questões internas; ver o que “o que se anda a dizer de nós lá fora” e, se disserem mal, há quase automaticamente um enorme potencial mediático.

O autor de todos estes textos do El Mundo é sempre o mesmo: Sebastião Pereira. E é justamente aqui que o problema começa. Até ao último Sábado, Sebastião Pereira nunca tinha escrito um único texto no El Mundo ou em qualquer outro órgão de comunicação social português ou espanhol. Uma conclusão que resulta de uma pesquisa em todos os arquivos online. Não há também qualquer registo com o nome de Sebastião Pereira na Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), a única instituição que pode habilitar jornalistas portugueses a exercer a profissão em Portugal. Nas redes sociais, nas escolas de jornalismo e entre jornalistas que estiveram no local do incêndio, ninguém sabe ou ouviu falar de tal nome.

Segundo o El Mundo, Sebastião Pereira é um freelancer a actuar em Lisboa, que, no Sábado, se ofereceu directamente ao jornal para fazer a cobertura dos incêndios florestais de Pedrógão Grande, aproveitando para isso o facto de já estar pela zona.

É este o estranhíssimo caso de Sebastião Pereira, o jornalista-fantasma.

Neste momento, e depois de investirmos algumas horas no assunto, podemos afirmar com segurança que o "jornalista português Sebastião Pereira" não existe, logo:

1. Ou Sebastião Pereira não é jornalista e, usando o seu nome próprio ou um pseudónimo, enganou um dos maiores jornais espanhóis e a imprensa portuguesa foi de arrasto num enorme logro.

2. Ou Sebastião Pereira é um jornalista português com carteira (ou carteira de estagiário) que está a usar um pseudónimo para dissimular a sua verdadeira identidade (na consciência, talvez, de que a verdadeira identidade cortaria a corrente mediática que se formou e que deu origem às notícias em Portugal)

3. Ou o El Mundo está a enganar todos os seus leitores e não contratou nenhum jornalista, estando apenas a reproduzir textos de outros órgãos, criando a assinatura de uma personagem fictícia.

Em qualquer das hipóteses, o caso é gravíssimo por várias razões. Desde logo, porque podemos já dizer que grande parte da imprensa portuguesa foi caixa de ressonância de uma notícia que tem, no mínimo, um problema de consistência enorme no plano da autoria. Mas pode ainda ser mais grave, dependendo do que vier a saber-se a partir deste preciso momento.

Entendemos que o El Mundo tem de dar explicações sobre este caso, identificando inequivocamente Sebastião Pereira. Tem de dar explicações urgentes. É nesse sentido que propomos a todos os nossos seguidores que nos ajudem a contactar Paco Rosell (Diretor) e Silvia Roman (Jefa Sección Internacional), para que ambos se pronunciem sobre o que se está a passar.