domingo, 17 de janeiro de 2021

PARA QUANDO A IGUALDADE DE GÉNERO…?

 


A Igreja não é somente para homens.

«Uma questão que está sempre em estudo, sem nenhuma conclusão, é o papel das mulheres na Igreja e nos chamados ministérios ordenados como, por exemplo, o da presidência da Eucaristia.

O Papa Francisco acaba de publicar uma Carta Apostólica sob a forma de “Motu Proprio”, Spiritus Domini. É tão breve que se pode chamar um bilhete cheio de ironia. Diz que “Os leigos que tiverem a idade e as aptidões determinadas com decreto pela Conferência Episcopal, podem ser assumidos estavelmente, mediante o rito litúrgico estabelecido, nos ministérios de leitores e de acólitos; no entanto, tal concessão não lhes atribui o direito ao sustento ou à remuneração por parte da Igreja.”

Posso estar muito enganado, mas esta Carta é um exercício magnífico de ironia pastoral. Bergoglio tem-se esforçado por realçar que o lugar das mulheres na Igreja está muito desfasado em relação ao papel que desempenham na vida social, cultural, económica e política em muitos países. Homens e mulheres gozam cada vez mais, ainda com muitas distorções, dos mesmos direitos e deveres cívicos.

No entanto, o Papa Francisco esbarra com a Carta Apostólica de João Paulo II, Ordinatio Sacerdotalis (22.05.1994): “A ordenação sacerdotal, mediante a qual se transmite a função confiada por Cristo aos apóstolos, de ensinar, santificar e reger os fiéis, foi reservada sempre, na Igreja Católica, exclusivamente aos homens.” Esta Carta precisa de uma hermenêutica rigorosa que mostre que ela continua com as imagens de um mundo que está condenado a desaparecer. Ao publicar um Motu Proprio sobre o que já não precisava de nenhuma publicação, o Papa Francisco manifesta o ridículo da situação actual. 1»


Cristo não entregou a missão de divulgação do reino somente a homens; fê-lo, também e por excelência, a mulheres. Lembremos:

Maria Madalena, quando chegou ao sepulcro e não encontrou lá o corpo do Senhor, julgou que alguém O tinha levado e foi avisar os discípulos. Estes vieram também ao sepulcro, viram e acreditaram no que essa mulher lhes dissera. Destes está escrito logo a seguir: E regressaram os discípulos para sua casa. E depois acrescenta-se: Maria, porém, estava cá fora, junto do sepulcro, a chorar.

Estes factos levam-nos a considerar a grandeza do amor que inflamava a alma desta mulher, que não se afastava do sepulcro do Senhor, mesmo depois de se terem afastado os discípulos. Procurava a quem não encontrava, chorava enquanto buscava e, abrasada no fogo do amor, sentia a ardente saudade d’Aquele que pensava ter-lhe sido roubado. Por isso, só ela O viu então, porque só ela ficou a procurá-l’O. Na verdade, a eficácia das boas obras está na perseverança, como afirma também a voz da Verdade: Quem perseverar até ao fim será salvo.

Começou a buscar e não encontrou; continuou a procurar e finalmente encontrou. Os desejos foram aumentando com a espera e fizeram que chegasse a encontrar. Porque os desejos santos crescem com a demora; mas os que esfriam com a dilação não são desejos autênticos. Todas as pessoas que chegaram à verdade, conseguiram-no porque lhe dedicaram um amor ardente. Por isso afirmou David: A minha alma tem sede do Deus vivo; quando irei contemplar a face de Deus? Por isso também diz a Igreja no Cântico dos Cânticos: Estou ferida pelo amor. E ainda: A minha alma desfalece.

Mulher, porque choras? Quem procuras? É interrogada sobre a causa da sua dor, para que aumente o seu desejo e, ao mencionar ela o nome de quem procurava, mais se inflame no amor que Lhe tem.

Disse-lhe Jesus: Maria! Depois de a ter tratado pelo nome comum de “mulher”, sem que ela O tenha reconhecido, chamou-a pelo nome próprio. Foi como se lhe dissesse abertamente: “Reconhece Aquele que te conhece a ti. Não é de modo genérico que te conheço, mas pessoalmente”. Por isso Maria, ao ser chamada pelo seu nome, reconhece quem lhe falou; e imediatamente lhe chama “Rabbúni”, isto é, “Mestre”. Era Ele a quem procurava externamente e era Ele quem a ensinava interiormente a procurá-l’O e a divulgá-l’O.

 

Quase desde sempre as mulheres eram excluídas da sucessão. Quando contraiam matrimónio recebiam um dote, constituído de bens que seriam administrados pelo marido. O casamento era um pacto entre duas famílias, o seu objectivo era simplesmente a procriação. A mulher era, ao mesmo tempo, doada e recebida, como um ser passivo.

O marido que amasse excessivamente a sua esposa era visto como adúltero (luta constante entre o amor platónico e o amor físico/carnal, defendido, também, no Renascimento). Não deveria usá-la como se fosse uma prostituta. A mulher não podia tratar o marido como se ele fosse o seu amante. Através do casamento, o corpo da mulher passava a pertencer ao seu esposo. Mas a alma dela deveria sempre permanecer na posse de Deus.

Para a maioria dos pensadores da IdadeMédia, a palavra latina que designava o sexo masculino – Vir –, lembrava-lhes “Virtus”, isto é, força, rectidão, virtude. Para Mulier, o termo que designava o sexo feminino lembrava –Mollitia –, relacionada à fraqueza, à flexibilidade e à simulação.

A mulher deveria ser vista como submissa, pois, era temida. Considerava-se que a mulher era o pecado, a carne fraca. O casamento não tinha, como objectivo unir pessoas que se amassem, ou dar prazer a alguma das partes, mas sim o propósito da procriação.

A mulher, quando se casava, simplesmente trocava de homem ao qual tinha de se submeter – de pai para, depois, marido.

A prostituição era considerada um “mal necessário”, pois curava vontades de jovens e clérigos, mas ainda assim as prostitutas eram, tal como ainda hoje, marginalizadas da sociedade.

Em algumas doutrinas diferentes do catolicismo a mulher poderia ter os mesmos direitos que os homens; todavia, embora a religião tenha evoluído bastante a partir da contra-reforma, a mulher continuava a ser discriminada pela Igreja.

Parece que o Papa Francisco continua solitário nesta grande tarefa. Creio, contudo, que a igualdade de género está para breve. Cristo escolheu uma mulher – Maria Madalena – para testemunhar a sua ressurreição e divulgar aos outros apóstolos este feito, em primeira mão.



 1-Frei Bento Domingues O.P., in Público. Domingo, 17 de Janeiro de 2021

domingo, 15 de março de 2020

A maior revolução religiosa





A maior revolução religiosa


Frei Bento Domingues O.P.

A conversa sobre o papel das mulheres na Igreja não avança porque não se liga nada à importância que Jesus lhes atribuiu

1 É muito complexa a história do povo samaritano. Segundo a investigação de 2019, existiam apenas 820 samaritanos. Parece que num passado remoto ultrapassaram o milhão [1]. Apesar da sua reduzida expressão numérica actual, a liturgia cristã não os pode esquecer. Ao longo do ano litúrgico, são muitas as referências, extremamente simpáticas, dedicadas a esse povo semita que era detestado pelos judeus por ter conservado, da herança comum, apenas o Pentateuco e ter levantado um lugar de culto rival do templo de Jerusalém. Mas porque será que os textos do Novo Testamento construíram, por contraste, figuras samaritanas que apresentam como exemplares para todos os tempos e lugares?
Esses textos não são as actas factuais do comportamento de Jesus de Nazaré. São interpretações contextuais dos seus atrevimentos, mas não há dúvida de que este galileu insólito não suportava aquele ódio fratricida nem a justiça do olho por olho, dente por dente [2]. Esses textos de inapagável beleza atribuem a um judeu a apresentação de figuras samaritanas — figuras de um povo rival — como exemplo do que deve ser um discípulo da Lei Nova do Evangelho. O Nazareno não fazia acepção de pessoas. Tanto curava judeus como samaritanos ou gentios. Eram doentes, e só por isso deviam ser socorridos sem mais considerações. Mesmo assim, destaca que entre os dez leprosos curados só um samaritano veio agradecer.
Segundo o Evangelho de S. Mateus, quem mais precisava de conversão era Israel e, por isso, é em primeiro lugar às ovelhas perdidas deste povo que se dirige a intervenção de Jesus [3]. Paulo também começou a sua pregação pelas sinagogas, pelos judeus. Mas depressa descobriu que, em Jesus, não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, não há circunciso e incircunciso, bárbaro, cita, escravo ou livre. O que importa é que a vida e a mensagem de Cristo sejam tudo em todos [4]. Existem, no entanto, narrativas de ruptura, de natureza altamente simbólica, que são dedicadas a exaltar figuras samaritanas. Comecemos por uma que é proclamada, hoje, na Eucaristia e constitui uma radical revolução religiosa. Pertence ao capítulo 4.º do Evangelho de S. João e está disponível online.
2. Jesus estava de viagem e parou, em Sicar, cidade da Samaria, enquanto os discípulos foram procurar alimentos. Estava cansado, sozinho, com muita sede e sentou-se junto do famoso poço de Jacob de profundidade excepcional (32 metros!), com água sempre fresca mesmo sob o sol escaldante do meio-dia.
Entretanto, veio uma mulher da Samaria para tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. A samaritana espantou-se: Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, a mim, que sou samaritana? Jesus muda de registo. Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem te pede: dá-me de beber, tu é que lhe pedirias, e Ele dar-te-ia água viva! A mulher goza com esse despropósito: Senhor, não tens sequer um balde e o poço é fundo... Onde consegues, então, a água viva? Porventura és mais do que o nosso patriarca Jacob, que nos deu este poço donde beberam ele, os seus filhos e os seus rebanhos?
Jesus retoma a iniciativa: Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede; mas quem beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der há-de tornar-se nele em fonte de água que dá a vida eterna. A mulher aproveita a deixa: Senhor, dá-me dessa água, para eu não ter sede, nem ter de vir cá tirá-la.
Como não era bem visto falar com uma mulher em público sem o marido, Jesus diz-lhe: Vai, chama o teu marido e volta cá. A mulher retorquiu-lhe: Não tenho marido. Jesus revela a situação real desta samaritana extraordinária: Disseste bem: não tenho marido, pois tiveste cinco e o que tens agora não é teu marido. Nisto falaste verdade. A mulher não se deu por achada: Vejo que és um profeta! Então explica-me: Os nossos antepassados adoraram a Deus neste monte, e vós dizeis que o lugar onde se deve adorar está em Jerusalém.
3. Começa a revolução: Jesus declarou-lhe: Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que, nem neste monte nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai.
Ainda tentou afirmar a superioridade judaica, mas deu-se conta de que isso já não fazia sentido. Chegou a hora em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. Deus é espírito; por isso, os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade.
Ainda hoje, 2020, se procura vencer a violência louca em nome de Deus por meio do diálogo inter-religioso. É a única alternativa defensável. Acontece, porém, que, em muitos desses diálogos, cada um dos intervenientes não vai além de manifestar aquilo em que está de acordo e o que julga inaceitável. Raros são os que fazem a autocrítica das instituições a que pertencem. Os diálogos repetem-se, mas não fazem avançar para uma nova plataforma que os transfigure e transfigure as suas problemáticas religiosas.
O insólito encontro da samaritana com Jesus venceu os preconceitos de que ambos partiram. A mulher pressente em Jesus o Messias esperado e ele confirma-o. O espantoso é que ela abandona o cântaro. Tinha encontrado outra água e vai a correr à cidade levar a boa nova que descobriu. Não pede que acreditem nela. Vai apenas dar o seu testemunho, levantar uma séria interrogação messiânica e propor aos seus conterrâneos que sejam eles a verificar. Foram e pediram a Jesus que ficasse com eles. “Então, muitos mais acreditaram nele por causa da sua pregação e diziam à mulher: Já não é pelas tuas palavras que acreditamos; nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo.” É a única vez que esta confissão pública e solene aparece no Evangelho de João.
A conversa sobre o papel das mulheres na Igreja não avança porque não se liga nada à importância que Jesus lhes atribuiu.
P.S.O Evangelho de João é o mais sacramental. É também o da maior revolução religiosa, como vimos. Dadas as circunstâncias da covid-19, não seria de estranhar que a Conferência Episcopal Portuguesa cancelasse as celebrações da Quaresma e da Páscoa que manifestem riscos de contágio. O culto em espírito e verdade não depende das celebrações litúrgicas. Em Lucas, também há um contraste ético entre os zeladores do templo que viram e não ligaram e o herético samaritano que viu e socorreu (Lc 10, 29-37).
____________________
[1]      Para quem desejar conhecer a história do povo samaritano, a Wikipédia é muito abundante na informação, referindo as fontes em que se baseia
[2]      Lc 9, 52-56
[3]      Mt 10, 5-6; Act 8, 5; 13, 44-47
[4]      Gal 3, 27-28; Cl 3, 11



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Que irão fazer no futuro?





[…]

Racismo e manifestações racistas são consideradas crime público.
Da entidade X à Y, do senhor(a) A ao B, do presidente da assembleia geral K ao presidente Z todos tomaram conhecimento da ignomínia racista que mais uma vez se estava a passar num campo de futebol. E, então…?!
Ah! Estavam lá os agentes da autoridade e os seguranças. Sim!? O que é que fizeram? Então, não é crime público…?!
Ah! A FIFA e a UEFA recomendam (proíbem) imagens de violência ou chocantes. Nada de pôr em risco a boa imagem desportiva, que não existe. Paga-se uma multa – e até é bom, pois enriquece os cofres –, mas o valor até é pequeno: meia dúzia de euros. Não penaliza.
Estou farto que se tape o Sol com a peneira. Isto tem sido nos estádios desportivos… e o resto, as constantes discriminações rácicas na sociedade portuguesa?!
Onde está o nosso grito de revolta?!!
Ficamos muito indignados quando vemos na imprensa estrangeira a constatação de que os portugueses são racistas. Eu fico muito indignado, não pelo que afirmam, mas porque é verdade. A brincar, a brincar manifestamos avulsas manifestações racistas. Isto é verdade.
Ontem conseguiram irritar-me!
Fico, todavia, com uma dúvida: que irão fazer…??

[…]


domingo, 19 de janeiro de 2020

A NOVA REFORMA






Não estou a converter-me ao cristianismo. Não! Talvez nunca tenha deixado de ser cristão, embora, não cumpridor. É assim que tenho acompanhado com elevado interesse o desenrolar dos alertas que o papa Francisco tem apregoado – talvez a “Nova Reforma” –, que só os conservadores, – temerosos de perder as suas prerrogativas totalitárias – a querem ignorar. O Próprio cardeal Ratzinger foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Enquanto tal, criou o deserto teológico na Igreja Católica. Até mesmo o “poema bíblico” Génesis, se assim se pode designar o primeiro livro da Bíblia, o que relata a criação do Universo.
Como escreve Bento Domingues, “o poema bíblico da criação, ao celebrar a vitória sobre o caos e ao exaltar a harmonia humana e divina do universo, é fundamental para não desesperarmos dos trabalhos que exige a sua urgente recriação” na casa de todos nós.
O recente livro do cardeal Sarah pretende considerar como co-autor o cardeal Ratzinger. Não me preocupa se é, ou não, verdade; se é mais uma apologia da misoginia religiosa… que contraria a doutrina do próprio fundador – Cristo.
O carisma do celibato não é, de si, o carisma de um padre ou de um bispo. Na Igreja Católica houve sempre mulheres e homens que optaram por viver o celibato como uma grande graça e é característica de todas as congregações religiosas”. Deveria ser, em princípio, uma opção pessoal. Do mesmo modo, todos os cristãos – pelo Baptismo – deveriam ser considerados sacerdotes…
O cardeal Ratzinger foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Enquanto tal, criou o deserto teológico na Igreja Católica. Queria ser o único. Foi eleito Papa e resignou porque já não se sentia com forças para enfrentar a poluição do Vaticano. Não é Papa emérito. Não é Papa, pura e simplesmente. Neste momento, não há dois papas. Não lhe fica bem alinhar com a campanha dos adversários das reformas urgentes propostas pelo único Papa actual, como diz Frei Bento Domingues.
Ratzinger não deve tentar refazer a Congregação para a Doutrina da Fé – eufemismo moderno para Tribunal do Santo Ofício ou para Santa Inquisição – porque isso seria recriar, mais uma vez, um crime ignóbil, ainda sentido no meio do catolicismo.
A reforma, quer queiram ou não, terá de se fazer.



sábado, 2 de novembro de 2019

A VANTAGEM DA IMPERFEIÇÃO


UM Hino à Liberdade é, para além do que escreve Leonardo Boff no texto seguinte, a vida do meu irmão mais velho, que hoje – 2 de Novembro – completa 75 anos.
Sempre foste livre; por vezes, incompreendido; mas eras e és autêntico.

Parabéns, Domingos!




«A VANTAGEM DA IMPERFEIÇÃO
Em tempos em risco de nossa liberdade, é importante pensarmos em sua importância. Nascemos completos mas imperfeitos. Não possuímos nenhum órgão especializado, como a maioria dos animais. Para sobreviver, temos que trabalhar e intervir na natureza. Os mitos esclarecem esta situação.
Os indígenas guaicuru, do Mato Grosso do Sul, perguntaram-se o porquê da imperfeição e do alto significado da liberdade. Demoraram longo tempo para chegar a uma resposta. A explicação veio pelo seguinte mito, portador de verdade.
O Grande Espírito criou todos os seres. Colocou grande cuidado na criação dos humanos. Cada grupo recebeu uma habilidade especial para sobreviver sem maiores dificuldades. A alguns deu a arte de cultivar a mandioca e o algodão. Assim podiam se alimentar e se vestir. A outros deu a habilidade de fazer canoas leves e o timbó. Desta forma podiam se locomover rapidamente e pescar.
Assim fez com todo os grupos humanos na medida em que se distribuíam pelo mundo. Mas com os Guaicuru não aconteceu assim. Quando quiseram sair para as vastas terras, o Grande Espírito não lhe conferiu nenhuma habilidade. Esperaram, suplicando, por muito tempo e nada lhes foi comunicado. Mesmo assim resolveram partir. Sentiram logo muita dificuldade em sobreviver. Resolveram procurar intermediários do Grande Espírito para receber também uma habilidade.
Primeiro, dirigiram-se ao vento, sempre soprando e rápido: “Tio vento, tu que sopras pelas campinas, sacodes as matas e passas por cima das montanhas, venha-nos socorrer”. Mas o vento que sacudiu as folhas, sequer ouviu o pedido dos guaicuru. Em seguida, se voltaram para o relâmpago que estremece toda a terra. “Tio relâmpago, você que é parecido com o Grande Espírito, ajude-nos”. Mas o relâmpago passou tão rápido que sequer escutou o pedido deles.
Assim os guaicuru suplicaram às árvores mais altas, aos cumes das montanhas, às águas correntes dos rios, sempre suplicando: “Meus irmãos, intercedam por nós junto ao Grande Espírito para não morrermos de fome,” Mas nada acontecia.
Meio desesperados vagavam por várias paragens. Até que pararam debaixo do ninho de um gavião-real.
Este ouvindo seus lamentos resolveu intervir e disse: “Vocês, guaicuru, estão todos errados e são uns grandes bobos”. “Como assim? responderam juntos. “O Grande Espírito se esqueceu de nós. Você que é feliz, recebeu o dom de um olhar penetrante e perceber um ratinho no boca da toca e caçá-lo”.
“Vocês não entenderam nada da lição do Grande Espírito”, retrucou o gavião-real. “A habilidade que ele lhes deu está acima de todas as outras. Ele vos deu a liberdade. Com ela vocês podem fazer o que desejarem fazer.”
Os guaicuru ficaram perplexos e cheios de curiosidade. Pediram ao gavião-real que lhes explicasse melhor esta curiosa habilidade. Ele, cheio de garbo, lhes falou: “Vocês podem caçar, pescar, construir ‘malocas’, fazer belas flechas, pintar os corpos, os potes, viajar para outros lugares e até decidirem o que vocês querem de bom para vocês e para a própria natureza”.
Os guaicuru se encheram de alegria e diziam uns aos outros: “que bobos nós fomos, pois nunca discutimos juntos a vantagem de sermos imperfeitos. O Grande Espírito nunca se esqueceu de nós. Deu-nos a melhor habilidade, de não estarmos presos a nada, mas de podermos inventar coisas novas, sabendo das vantagens de nossa imperfeição.
O cacique guaicuru perguntou ao gavião-real: “Posso experimentar a liberdade?” “Pode”. O cacique tomou uma flecha e derrubou do alto de uma jaqueira uma grande fruta de jaca. E todos se deliciaram.
Desde aquele momento, os guaicuru, exerceram a liberdade. Tornaram-se grandes cavaleiros e nunca puderam ser submetidos por nenhum outro povo. A liberdade lhes inspiravam novas formas de se defender e garantir a melhor habilidade dada pelo Grande Espírito.
Os mitos nos inspiram grandes lições, especialmente nos dias actuais quando forças poderosas, nacionais e internacionais, nos querem submeter, limitar e até tirar nossa liberdade. Devemos ser como os guaicuru: saber defender o maior dom que temos, a liberdade. Devemos resistir, nos indignar e nos rebelar. Só assim fazemos o nosso próprio caminho como nação soberana e altiva. E jamais aceitaremos que nos imponham o medo nem que nos roubem a liberdade.»


quinta-feira, 27 de junho de 2019

DAS MINHAS CONVERSAS POR E-MAIL (10)







Meu caro[…]

[…]

Hoje, fiquei, deveras, furioso com o pasquim que lemos habitualmente. Já não falo do escriba-chefe – Manuel Carvalho. Com este já não gasto os olhos, não perco tempo nem procuro compreender ou avaliar as suas fontes; sei que é ódio, vingança, justificações do “porque sim” e “ad hominum”.
Tento, tanto quanto possível, ignorar e evitar ler os escribas arregimentados pelo M. Carvalho. Aventuro-me, uma ou outra vez, a ler atravessado eventuais títulos dos apaniguados do Carvalho; e, na maioria das vezes, sem concluir.
Se te deres ao cuidado de cruzar informação relativamente à parangona do artigo da Leonete Botelho (até o nome respira falsidade), na página 9 do jornal Público de hoje, quarta-feira, sob o título “O terceiro país do mundo onde menos se acredita no Governo”, com aquela caixaO seu Governo age em função do interesse público? A sua voz conta em política? Questões colocadas pela Fundação Aliança de Democracias (Rasmussen Global) e pela Dalia Research em 50 países”…
Está descansado, não te maçarei muito, embora queira relembrar quem é a Fundação Aliança de Democracias (Rasmussen Global): A Aliança Social Democrática é um partido político da Islândia. O partido foi fundado em 1999, através da fusão de quatro partidos de centro-esquerda e esquerda, com o objectivo de criar um grande partido de centro-esquerda. (Fonte)
Ideologicamente, a Aliança segue uma linha social-democrata, defendendo a intervenção do Estado na economia e a nacionalização da gestão dos recursos naturais, além de, defender a integração da Islândia na União Europeia. Hoje, estes partidos dividem-se (dois a dois) entre Direita e Esquerda em alternância.
A Dalia Research é uma gestora de dados que comercializa justificações objectivas, como ela própria se define:
Every month, we ask millions of people across the world questions.
We do this to generate insights that help companies to improve their products, politicians to make better decisions, and academics to better understand human behavior.” Todos os meses, fazemos perguntas a milhões de pessoas em todo o mundo. Fazemos isso para gerar “insights” que ajudem as empresas a melhorar os seus produtos políticos a tomar decisões melhores e académicos, a entender melhor o comportamento humano. (Fonte).
Eles não definem estratégias – sugerem-nas.
Quere isto dizer que se limitam a gerir uma base de dados de perguntas cujas respostas poderão vir a ser utilizadas aleatoriamente pelos clientes.
Depois do que temos visto por cá em termos de sondagens, a confiança no Governo (que não no partido) anda por valores bastante mais invejados do que se pensa e que a Leonete Botelho apregoa.

[…]

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

DAS MINHAS CONVERSAS POR E-MAIL (9)











Sondagens do Brasil...


[…]

O que faz, por vezes, mover a humanidade? É isso mesmo que pensas. É a capacidade de sonhar, de, sem ser ingénuo, acreditar que é possível, que ainda é possível aos primários uma réstia de ponderação; acreditar que nos corações mais empedernidos poderá haver um pouco de atenção por quem necessita e, nos mais odiosos, restar uns pozinhos de amor.

Sei que parece uma dimensão poética inalcançável, mas quantas vezes não demos connosco a quase acreditar em milagres. Se não nos consideramos deterministas, principalmente na concretização das coisas boas, por que o fazemos se for ao contrário?

É isso mesmo, meu amigo marreta (como eu). Fiquei um pouco esperançado com a alteração das sondagens no Brasil. Não que tenham virado completamente…, mas já viraram o suficiente para termos o resquício de esperança que ocorre ao náufrago.

Faltam três dias…!

A sede de informação de muitas das pessoas que votaram em Bolsonaro, talvez despertasse a curiosidade de ver como é que a Europa e o resto do mundo pensavam sobre o Brasil e… sofreram o choque – o Brasil já não era respeitado! Estava na eminência de acabar!

Sem me iludir, quero crer que é possível acabar com a destruição do bom que já se fez; ou, então, já é a alucinação do fim da esperança… a aproximação da morte.

[…]



segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Acordo Ortográfico



Uns escudam-se com a unificação da língua – por causa dos PALOP. Outros argumentam que a razão de tal se deve aos brasileiros. Falso...

Tristeza!

Exemplo de Nei Leandro de Castro.

Já não basta perder a sua identidade; querem tirar-lhe a forma de se expressar, tal como a nós, portugueses.

Não nos tirem tudo; deixem-nos a alma – a língua.





quarta-feira, 25 de abril de 2018

25 DE ABRIL DE 2018





Quero tornar extensivo a todos vós os votos que fiz ao meu amigo Eduardo, hoje, 25 de Abril de 2018:

Parabéns, pela quota parte do que de bom fizeste, nestes últimos 44 anos.

Obrigado, por também teres contribuído na emancipação deste povo a que pertencemos.

Que contemos muitas mais celebrações do 25 de ABRIL, atentos e vigilantes, para que não haja mais atropelos à liberdade; que se reponham os parâmetros da justiça, enquadrada num novo paradigma da democracia – A verdade e a Transparência –; que a democracia seja genuína e respeitadora das vontades manifestadas, respeitando, sempre, as minorias resultantes e participativas.

Viva o 25 de Abril



quinta-feira, 5 de abril de 2018

Traição, por um simples prato de lentilhas…



Depois de ter desabafado este texto com o meu amigo Eduardo, resolvi fazê-lo, também, convosco.


[…]

Julgava que, depois da 2.ª Guerra Mundial e da inundação da América Latina por criminosos dessa guerra, a aprendizagem dos povos tinha sido eloquente, com consequente caça a tal gente. Percebeu-se que não poderiam ficar impunes.

Ao longo dos séculos, a aprendizagem dos povos fez-se pela dispersão da cultura dos povos, pela democratização, a alfabetização, a partilha cultural das diferentes sociedades. Assim foi com a Grécia e a Roma antigas, para quem a humanidade se voltou novamente depois de “mil anos de trevas” – com o Renascimento.

Também na América latina, os povos deixaram de estar dependentes daqueles que lhes indicavam o que lhes convinha. Iniciaram um processo de aprendizagem pelos seus próprios meios – já sabiam ler, já podiam aprender por si, tinham a partilha das experiências de libertação, que só a cultura dá, e seguiram o exemplo e a liderança dos seus pares.

Foi assim que se libertaram dos Pinochet, Castelo Branco, Costa e Silva, Videla, Viola, Fulgencio Batista e tantos mais que abundavam o Sul daquele continente.



Todavia, passado algum tempo, depois dos vencidos terem recuperado, sempre que punham em risco o exercício do poder dos EUA e do que estaria predefinido para aquelas paragens, por parte dos presidentes em exercício no Norte, algo corria mal.

Pugnava-se pelo exercício de uma “real e autêntica democracia”, só com um senão – tinham que saber interpretar e cumprir as determinações do dono da democracia, através dos seus “braços armados”. As múltiplas Agências do poder americano, tão bem representadas pelo seu actual líder, dominavam a divulgação das suas “beneméritas” e “altruístas” actividades, através das infindas séries televisivas.

Assim tem sido a propagação “cultural” do Norte – uma nova dinamização cultural… baseada na Tv.
Voltando à cultura autêntica, que é fruto das realizações dos povos, apercebemo-nos de quão frágil é a nossa preparação para resistirmos ao controlo da sua disseminação facciosa e tendenciosa; esta, sim, uma autêntica catequização do novo mal. Para tal, bastou um paciente trabalho de sapa para congregar em sua volta a arma mais poderosa que, até então, os poderia enfrentar e denunciar – a comunicação social. Conseguiram-no!

Não, não foi pela corrupção – que, a isto não chamamos corrupção –, chamaremos de traição: venderam-se e continuam a vender-se por um prato de lentilhas.



[…]


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Não ao AO90











I
niciativa Legislativa de Cidadãos 



Faltam poucas assinaturas para atingir as 20.000 necessárias para uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico possa entrar na Assembleia da República.

Eu já assinei. Quem o queira fazer, é fácil: basta subscrever “online”, aqui:






terça-feira, 26 de dezembro de 2017

DESCRUCIFICAR




O Papa Francisco foi confrontado por uma menina, no Vaticano, que o questionou porque, sendo papa, tendo direito a viver no luxo, a ter grandes e faustosos carros, a viver no máximo dos confortos […] o não fazia. Francisco respondeu-lhe: “já me fizeram essa pergunta; foi um professor que a fez. Eu respondi-lhe que isto era um problema do foro psiquiátrico…”.

Francisco, confrontado pelos jornalistas acerca do que pensava sobre os homossexuais frequentarem a Igreja, respondeu: “Quem sou eu para os julgar…?”

Mas, já é um quarto dos Cardeais que pretendem a sua condenação – excomunhão.

Frei Bento Domingues, no Público de 17 de Dezembro, escrevia:

“Jesus Cristo não desejou nem santificou a cruz. Alterou-lhe, porém, a significação de forma radical.”

E escreveu muito mais:
[…] hoje podemos acolher a graça da nossa transformação interior que nos associe, de forma activa, às mais diversas iniciativas sociais, culturais e políticas da construção de uma cultura da justiça e da paz, a nível local e global. O Espírito do Natal é Aquele que suscitou o canto subversivo de Maria de Nazaré.

As preocupações com as indispensáveis reformas das “cozinhas eclesiásticas” da Igreja, se não estiverem centradas no estilo da prática histórica de Jesus Cristo e nas urgências dos mais carenciados das nossas sociedades, acabam por nos fazer esquecer que somos nós, [ou que é] a Igreja, que precisamos de reforma permanente.

Frederico Lourenço — a grande figura portuguesa da cultura bíblica fora das sacristias — recorda-nos que os Evangelhos têm, ainda hoje, em 2017, o potencial para mudar o mundo para radicalmente melhor. Sublinha comovido: “Jesus Cristo, com as palavras que lhe são atribuídas nos quatro evangelhos, é a figura que mais me interessa. Continuo a achar que, independentemente de ele ter dito aquelas palavras ou não, elas são as coisas mais extraordinárias que foram ditas à face da terra. Por exemplo, quando leio para mim o Novo Testamento estou num mundo maravilhoso que é só meu e me preenche muito, animicamente, espiritualmente. Apesar de ser um linguista crítico-histórico, não sou um ateu a traduzir a Bíblia. Serei sempre, até ao último segundo da minha vida, um apaixonado por esse judeu chamado Jesus de Nazaré.”[1]

Muitos anos antes, numa entrevista de 1978, Eduardo Lourenço mostrou a verdade da nossa condição, na própria referência cristã: “Cristo é o momento (sem limite de tempo) em que a humanidade tomou forma humana. [...] Foi crucificado, não por querer ser deus, mas por ensinar o que era ser homem. Dois mil anos passaram sem que esquecêssemos nem aprendêssemos a lição.”[2]

Num belo livro, traduzido por José Sousa Monteiro, deparo com a confissão do marxista Milan Machovec: “O coração duma freira desconhecida que se dedica a uma criança incurável, só poderia ser substituída por uma teoria da história, por um estúpido e um idiota [...]. Pessoalmente, não me traria grande desgosto o facto de a religião acabar. Mas se tivesse de viver num mundo no qual Jesus fosse inteiramente esquecido, então preferia não continuar a viver”[3].

Como escreveu o dominicano E. Schillebeeckx, para Jesus, a história dos seres humanos é a narrativa de Deus acolhido ou recusado[4].

Para o imaginário do Evangelho de S. Lucas, a festa do nascimento de Jesus aconteceu num curral iluminado pela luz do céu, acompanhada pela música dos anjos e rodeado de pastores e estrangeiros. Tudo aconteceu à margem do Templo de Jerusalém e dos palácios imperiais. Aliás, Jesus com o comércio do Templo teve uma relação muito agreste e só conheceu os palácios quando estava a ser julgado e condenado à pena capital. A sua coroa foi de espinhos e o seu trono foi uma cruz.

Esta apresentação testemunha um profundo contraste, mas pode cair na perversão do próprio Evangelho de Cristo, sugerindo que Jesus veio sacrificar-se e semear mais sacrifícios no mundo. Porque será mantida a cruz como símbolo cristão, quando o que Jesus procurava era, precisamente, descrucificar?

A minha hipótese de interpretação é outra, bastante simples, mas que importa explicar. A cruz, a sentença de morte mais bárbara e cruel, fazia parte do mundo que Jesus queria mudar. Então, por que continua a funcionar como um símbolo cristão, quando ela é anti-humana, anticristã?

Ao contrário do que se repete há séculos, Jesus Cristo não desejou nem santificou a cruz. Alterou-lhe, porém, a significação de forma radical. Foi-lhe imposta, num julgamento iníquo, por ele recusar trair o seu projecto. Tornou-se, deste modo, o símbolo da fidelidade inquebrantável, o signo da extrema generosidade. A presença de sinais da cruz, desde o baptismo até à morte, diz que é preciso dizer não à crucifixão da vida e dizer sim à generosidade libertadora, no dia-a-dia.

Tudo isto vem confirmado no trecho do Evangelho escolhido para a celebração da […]: estava Jesus sentado junto ao mar da Galileia e uma grande multidão veio ter com ele e lançou-lhe, aos pés, coxos, aleijados, cegos, mudos e muitos outros[5].

Se o mestre fosse um pregador de sacrifícios dizia-lhes: estais mal? Ainda bem. Assim podeis santificar-vos e, um dia, sereis muito felizes no céu. [puro marketing]

Jesus não acreditava nessa mística. Curou-os e organizou, com pouca coisa, um grande banquete popular. A multidão ficou admirada ao ver os mudos a falar, os aleijados a ficar sãos, os coxos a andar, os cegos a ver e todos a comer até sobrar.

Poder-se-á dizer: porque não deixou a fórmula? Seria uma alternativa muito barata dos serviços de saúde, públicos e privados. Mas ele não veio para nos substituir.

Já na apresentação do seu programa, em Nazaré, ficou claro que o mundo tinha de começar mesmo a mudar. Deus não podia ser O da ira de Iavé, mas O da pura graça do amor. Diz a narrativa evangélica que, nesse momento, os seus conterrâneos o julgaram um subversivo e, por isso, quiseram acabar logo com ele[6].

Os seus comportamentos eram, de facto, estranhos: andava em más companhias, com quem comia e bebia, a ponto de lhe chamarem “comilão e beberrão”; aceitou o convívio de mulheres que não eram todas exemplos de virtude; violava, sistematicamente, o Sábado[7] — o dia mais sagrado da sua religião — com curas que bem podia fazer noutros dias[8].

Não deixou fórmulas ou receitas que pudessem ser transformadas em rituais. A sua prática é um desafio à imaginação de todos os homens e mulheres, de todos os tempos, a usarem os seus talentos, as suas capacidades, não para cavar distância entre ricos e pobres, mas para as eliminar, pois não suporta ver uns à porta e outros à mesa, uns em banquetes requintados e outros na miséria[9].

Será tudo isto do foro psiquiátrico?

A nossa vida vive-se agora…!





[1] Frederico Lourenço, Entrevista, in Ler, Outubro 2017, n.º 147
[2] Eduardo Lourenço, in Opção, n.º 97, pp. 2-8, Março 1978
[3] Cf. VV. AA., Os marxistas e Jesus, Iniciativas Editoriais, Lisboa 1976, pp. 88 e 98
[4] Edward Schillebeeckx, L’histoire des hommes, récit de Dieu, Cerf, Paris 1992
[5] Mt 15, 29-37
[6] Lc 4, 16-30
[7] Lc 7; 8; 13, 10-17
[8] Lc 7; 8; 13, 10-17
[9] Lc 16, 19-31

domingo, 15 de outubro de 2017

DA MINHA CORRESPONDÊNCIA COM O EDUARDO (9)














Meu caro amigo […]

[…]

Não vou começar uma campanha de defesa de presumidos arguidos do processo “operação marquês”; porém, ainda a procissão iniciou a travessia do adro e já insuspeitas personalidades – entidades que seriam potenciais testemunhas do processo – negam as versões do MP, como é o caso de Sérvulo Correia, representante do Estado na Golden Share da PT, apesar do título do jornal Público indicar sentido diferente, na página 12.

Não tenho muitas esperanças de ver o fim deste julgamento. Ao arranjarem-se mais de quatro mil páginas para a dedução da acusação, é natural e normal que duzentas páginas depois de defender uma tese (escrita a várias mãos) já não se saiba a forma como se escreveu determinado assunto. Começam a aparecer as contradições notadas pelos observadores mais atentos por aqueles que ainda respeitam o sentido da democracia e do direito.

Uma coisa já eu sei: ao ser verdade (se fosse verdade) aquilo de que Sócrates é acusado, ele é um génio do crime. Estando num cargo dos mais escrutinados que pode haver – o de Primeiro Ministro –, conseguiu iludir todos e, sozinho, ludibriar toda a gente: encomendar, decidir, justificar, aprovar, despachar e receber os lucros…, isto tudo, sem que alguém desconfiasse. É de génio!

Olha, meu caro […] isto irrita-me; querem-me fazer passar por parvo...! Posso sê-lo, mas detesto que me forcem a esse convencimento. […]

[…]



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

ERNESTO “CHE” GUEVARA




Completam-se, hoje, 9 de Outubro, 50 anos que Che Guevara foi assassinado na Bolívia.


A história não o esquece!


domingo, 24 de setembro de 2017

Um Deus distraído?



Depois de ler, não pude deixar de partilhar este brilhante texto de Frei Bento Domingues, publicado no “Público” de 24 de Setembro de 2017.






Frei Bento Domingues, O.P., de seu nome Basílio de Jesus Gonçalves Domingues, é um religioso da Ordem dos Pregadores, por muitos considerado como um dos maiores teólogos portugueses.
Nasceu a 13 de Agosto de 1934 (83 anos).





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Não é a um Deus distraído que o Papa Francisco reza. Reza para diminuir o mundo dos distraídos.


1. Não têm conta as vezes que me fizeram, e fazem, a pergunta do título desta crónica. Sei que não tenho o exclusivo.
Não escondo que me divertem as pessoas religiosas e teólogas que dão a ideia – pelo que dizem e escrevem, pelo que aconselham ou mandam – que conhecem a vontade de Deus e os seus misteriosos caminhos. A tudo dizem: foi a vontade de Deus, mesmo quando essa expressão, pretensamente piedosa, é o pior insulto que Lhe podem fazer.
Por outro lado, são, por vezes, as mesmas pessoas que, pelas suas repetidas e abundantes orações, supõem que Deus ande mal-informado. As chamadas orações dos fiéis nas Celebrações Eucarísticas, mais ou menos gemidas, tentam lembrar a Jesus a sua responsabilidade pela péssima situação mundial.
Parece que todas as religiões, ou a maioria, têm fórmulas e livros de orações. Basta ir ao Google e, a partir da palavra oração, podemos ficar minimamente referenciados acerca desse mundo, ora sublime ora ridículo.
A nossa ligação fervorosa a Deus deveria estar atenta à nossa radical ignorância. Nunca me posso esquecer que S. Tomás de Aquino, depois de expor a sua epistemologia teológica e de apresentar as razões que tinha para afirmar que Deus existe, empenhou-se em mostrar, imediatamente, que não podemos saber como é Deus. A teologia dele é, sobretudo, uma luta contra as idolatrias que se insinuam em todas as atitudes e discursos religiosos.
Julgo que a religião – embora seja uma palavra de origem latina – nasce da consciência, mais ou menos explicita, do ser humano como realidade limitada. Precisa do outro para nascer, para crescer, para viver e para morrer. Não é auto-suficiente. É, por natureza, carente de cultura e de afectos. É uma realidade em permanente processo. Vai sendo através dos mil contactos cultivados ao longo da vida. É, estruturalmente, um ser aberto. Neste mundo multicultural e multirreligioso desenvolve-se bem ou mal, na recusa ou na aceitação. Quando se fecha aos outros, perde-se e afoga-se em si mesmo.
As boas relações humanas são as de acolhimento e cooperação. As más são as de dominação psicológica, económica, política e religiosa. Por isso, a pergunta mais sagrada, mais religiosa, em todas as situações, talvez seja esta: em que posso ajudar?
Não é por acaso que a primeira grande pergunta que Deus faz, logo no Génesis [1], seja esta: que fizeste ao teu irmão, e seja também a última que julgará a nossa história, segundo o Evangelho de S. Mateus [2].
Mas, então, devemos ou não rezar?

2. Não faltam, mesmo no Novo Testamento, recomendações de que devemos rezar sempre e em toda a parte. Não de qualquer maneira. Nem foi a primeira preocupação de Jesus. Consta, no Evangelho de S. Lucas, que os discípulos se sentiam um grupo um bocado abandonado, nesse aspecto. “Estando [Jesus] num certo lugar a rezar, ao terminar, um dos seus discípulos pediu-lhe: Senhor, ensina-nos a orar como João ensinou aos seus discípulos.” [3] Daí, resultou uma longa conversa e uma parábola que termina de forma paradoxal: a única coisa garantida é que o Pai dos Céus dará o seu Espírito aos que o pedirem. S. Mateus põe na boca de Jesus a recomendação: “Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como fazem os gentios, porque entendem que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles, porque o vosso Pai sabe do que tendes necessidade, antes de lho pedirdes.” De facto, deixou-nos apenas pistas muito gerais, no Pai-Nosso [4].
Estas indicações básicas atribuídas a Jesus deveriam merecer mais atenção. A Liturgia das Horas, rezadas em coro em muitas congregações religiosas, serve-se da recitação dos Salmos do Antigo Testamento. É precisa uma grande dose de paciência para aguentar a divisão entre o povo de Deus e os outros povos que não sabemos de quem são, geralmente inimigos. Esse Deus tem o encargo de defender e ajudar o seu povo e de atacar os outros povos. É um mundo pouco edificante de amigos e inimigos. É preciso, depois de Jesus Cristo, estar sempre a fazer descontos na oração.
Fazem parte de cenários em que se põe na boca do Senhor, Deus de Israel, uma narrativa na qual, depois de muitas bem-feitorias ao seu povo, que, finalmente, atravessou o Jordão e chegou a Jericó, faz esta declaração fantástica, coroa de muitas outras: “Combateram contra vós os que dominavam a cidade – os amorreus e os perezeus, os cananeus e os ititas, os girgasitas, os hevitas e os jebuseus – mas Eu entreguei-os nas vossas mãos. [...] Não foi com a vossa espada nem com o vosso arco que tudo isto foi feito. Dei-vos uma terra que não cultivastes, cidades que não construístes e onde agora habitais, vinhas e olivais que não plantastes e de que vos alimentais.” [5]
Pode um cristão rezar a um Deus destes?

3. Anda o Papa Francisco a dizer que não se pode matar em nome de Deus e, depois, louvá-Lo por ser um terrorista, porque eterno é o seu amor?
O diálogo inter-religioso, para não ser um teatro de mau-gosto, deve incluir a crítica das expressões religiosas que ofendem a Divindade maltratando os seres humanos.
Em Assis, já diversas vezes, os representantes de diferentes religiões foram rezar juntos. Nenhum tem o direito de criticar a forma de rezar dos outros, mas todos se deveriam sentir responsabilizados a contribuir, no âmbito da sua religião, para reverem as respectivas formas de rezar.
Por outro lado, se o ser humano é religioso pela interpretação que faz do seu limite, tem de cuidar de não transpor para Deus a sua responsabilidade. Quando se diz, de forma metafórica, que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, isso significa que o ser humano, por ser livre, é responsável pelo seu mundo, pela casa comum.
O Papa Francisco não se cansa de repetir que já estamos, de modo fragmentado, na terceira guerra mundial. Existem sistemas económicos que devem fazer a guerra para sobreviver. Ao fabricar e vender armas sacrificam, nos balanços económicos, o ser humano no altar do deus dinheiro.
Gosto da sua forma de rezar: Queridas irmãs e irmãos, eleva-se de todos os lugares da terra, de cada povo, de cada coração e dos movimentos populares, o grito da paz: guerra, nunca mais! [6]
Não é a um Deus distraído que ele reza. Reza para diminuir o mundo dos distraídos.

_________________
[1] Gn 4, 1-15
[2] Mt 25, 31-46
[3] Lc 11, 1-13
[4] Mt 6, 5-15
[5] Cf. Js 24, 1-13
[6] Politique et société, du Pape François (Rencontres avec Dominique Wolton), Editions de L’Observatoire/Humensis, 2017, p. 11.
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