terça-feira, 2 de junho de 2015

REVIVALISMO – 41 ANOS DEPOIS




Dia 1 de Junho de 2015 – Dia Mundial da Criança.

Pensava que, depois de quarenta e um anos, não iria ver mais imagens destas. Muito menos no Palácio de Belém.

Ordem Militar…?!

Nestas idades, julgo eu, nem no Estado Novo…

Sinto-me envergonhado, ludibriado… Traído.

Onde está a pedagogia?

Isto não foi na Hungria, Roménia, Áustria ou qualquer outro país com um manifesto crescimento fascista. Não! Isto foi em Lisboa – Portugal – Residência Oficial do Presidente da República – 1 de Junho de 2015.

Que eu saiba, é no Totalitarismo Fascista que o Estado tem completos poderes sobre a vida política, social, económica, cultural, pública e privada da nação.

Daí implicar:

partido único (que, por enquanto, está em formação);

anti-parlamentarismo (com a responsabilização dos partidos pelas coisas más e o descrédito dos deputados – não sei);

culto do chefe (embora em decréscimo, tentam reabilitá-lo – ele põe-se a jeito…);

estabelecimento da censura (actual crise da comunicação social e dos seus donos);

uso da propaganda (já não se distingue a notícia da mera propaganda).


Devagar se vai ao longe. Será mesmo isto que se pretende?

Espero que não…!



domingo, 31 de maio de 2015

Assassinado no altar


Obrigado Frei Bento Domingues por nos relembrar a luta dos povos contra a opressão, a coragem deste Papa Francisco e, ainda, pelo alerta que faz ao povo português para acordar da letargia a que se acomodou. Espero que o povo acorde e desperte para a reconquista da sua dignidade.

O próprio Papa Francisco tem dado o exemplo…

Oscar Romero

Texto de Frei bento Domingues, no Público:

«Em Fevereiro de 2015, o papa Francisco venceu as manobras dos cardeais adversários de Óscar Romero.

1. Óscar Romero, arcebispo de San Salvador, nasceu a 15 de Agosto de 1917 e foi assassinado, a 24 de Março de 1980, enquanto celebrava a Eucaristia. Antes de ser morto, ainda teve tempo de explicar, durante a homilia, que, apesar das ameaças de morte que lhe eram feitas, estava disposto a continuar a lutar contra a violência e a favor dos mais desprotegidos de El Salvador: Outros continuarão, com mais sabedoria e santidade, os trabalhos da Igreja e do meu país.

G. Gutiérrez, considerado o pai da Teologia da Libertação, sublinha: Romero não buscou o martírio, encontrou-o no caminho da sua fidelidade a Jesus Cristo, na firme atitude de pastor que não se calou perante as injustiças e humilhações quotidianas que vitimavam o seu povo [1].

Em Fevereiro de 2015, o papa Francisco venceu as manobras dos cardeais adversários de Óscar Romero. Reconhecendo-o como mártir, aprovou o decreto da sua beatificação, celebrada solenemente, no passado dia 23 de Maio, na capital de El Salvador e evocada no Convento de S. Domingos de Lisboa.

Para entender o desígnio deste assassinato e o sentido desta beatificação é preciso ter em conta a grande turbulência política e eclesial, caracterizada por um longo período de extrema violência, na América Central e no conjunto da América Latina. Os anos compreendidos entre 1977 e 1987 foram especialmente duros.

Nesse decénio crítico, muitos desses Estados tiveram regimes repressivos que se autojustificavam pela luta contra as guerrilhas revolucionárias ou comunistas. Os Estados Unidos apoiavam as lutas contra-revolucionárias; Cuba e os países de Leste sustentavam, com frequência, as guerrilhas.

Recordemos algumas datas bem conhecidas: a Argentina, depois do regresso e da morte de Péron, viveu numa ditadura militar de 1973 a 1982; o Brasil, de 1964 a 1985; o Chile encontrava-se, desde 1973 até 1989, sob a ditadura de Pinochet; o Paraguai foi governado pela ditadura militar de 1954 a 1989; o Uruguai conheceu uma feroz repressão entre 1973 e 1985; o Perú foi atingido pela guerrilha e pelo tráfico de droga; a Colômbia conheceu, a partir de 1947, uma dramática guerra civil e depois foi atravessada por fortes violências de vários grupos revolucionários ou de cartéis de narcotraficantes [2].

2. Perante os acontecimentos e a repressão, a análise dessas situações levou alguns movimentos cristãos à conclusão de que o caminho reformista era insuficiente. É neste contexto que é preciso entender a progressiva radicalização de O. Romero. O arcebispo Rivera, seu sucessor, observa: não estou de acordo com aqueles que apresentam Romero como um homem de batina que passou à revolução. O que aconteceu foi simplesmente isto: as massas populares, exacerbadas por tantas injustiças e repressões, desceram às ruas, praticando a desobediência civil e política. A Segurança Pública respondeu com uma repressão ainda mais violenta e, em seu auxílio, ocorreram também os esquadrões da morte.

O episcopado salvadorenho estava dividido. João Paulo II aconselhava o arcebispo a manter uma posição equilibrada, pois não se podia pensar apenas em defender a justiça, mas também em evitar que uma vitória revolucionária colocasse a Igreja em dificuldade.
A defesa do equilíbrio é também a preocupação do Arcebispo, mas não coincidia com o calculismo do Papa. A situação estava cada vez mais polarizada. A sua opção pelos pobres e pela defesa dos direitos humanos não lhe permitiam partilhar as posições revolucionárias, mas por outro, estava cada vez mais distante do poder económico e político. A violência e a morte contra as populações exerciam-se de forma preferencial sobre os padres.
O alvo principal foi atingido quando declarava na catedral: Assim como Cristo florescerá numa Páscoa de ressurreição imperecível, é necessário acompanhá-lo numa Quaresma, numa semana santa que é cruz, sacrifício, martírio. E, sem o procurar, foi martirizado a 24 de Março de 1980.
3. Diz-se que, entre os adversários da canonização de D. Óscar, estavam dois influentes cardeais colombianos: Alfonso López Trujillo, que já morreu, e Darío Castrillón Hoyos, aposentado. Ambos eram conhecidos pelas suas posições ultra-conservadoras e ocupavam, na década de 1990, importantes cargos na Cúria Romana. A arrogância desses cargos e posições não lhes garantiu grande clarividência.

A homilia de Romero, a 21 de Janeiro de 1979, no funeral do padre Octávio Ortiz e de mais quatro jovens assassinados pelas forças de segurança salvadorenhas, numa casa de retiros, é mais realista: Este mundo passa; somente permanece a alegria de se ter vivido para implantar, nele, o reino de Deus. Passarão pela boca do mundo todos os boatos, todos os triunfos, os capitalismos egoístas, os falsos êxitos da vida. Tudo isso passa. O que não passa é o amor, a coragem de reverter o dinheiro, os bens e a profissão ao serviço dos outros, a felicidade de compartilhar e de sentir todos os seres humanos como irmãos. Ao entardecer da vida, julgar-te-ão pelo amor.



[2] Cf. Andrea Riccardi, O Século do Martírio, Quetzal, Lisboa, 2002, 395-401; Victor Codina, SJ, El Espírito del Señor actúa desde abajo, cap.I, Sal Terrae, 2015; Roberto Morozzo della Rocca, Oscar Romero, Ed. A.O, Braga, 2015»



sábado, 30 de maio de 2015

QUE LEVA CAVACO A VERGAR-SE TANTO?




Sofia Rodrigues, no Público de hoje, 30 de Maio, escreve que “[…] o alinhamento do Presidente da República com o actual Governo começa a ser excessivo. Depois da acesa controvérsia criada com a renomeação de Carlos Costa para a liderança do Banco de Portugal (só defendida pelo PSD e CDS), Cavaco veio ontem a terreiro aconselhar a ‘estudar’ todos aqueles que criticam a opção do Governo nesta matéria. Mais: desdobrou-se em elogios e disse mesmo que Costa ‘é um dos poucos portugueses que sabem de política monetária’.”

Porque é que o discurso do “popularucho dogmatismo” – “é um dos poucos portugueses que sabem de política monetária” –, de Cavaco, aparece de forma tão ostensiva nesta circunstância, como em outras idênticas. Será por ir precisar da solidariedade do actual Governador do Banco de Portugal no futuro… e, por isso, necessita semear elogios…?

Não sei responder a esta questão, mas pressinto o medo (quase terror) das contas que terá de prestar ao País quando regressar à humilde condição de cidadão. Com a popularidade que tem granjeado nos últimos anos, não sei onde se poderá esconder; talvez na recolha do pagamento dos favores que tem, discricionariamente, distribuído…

O povo irá, certamente, cobrar os sacrifícios sofridos daqueles que se aliaram aos seus algozes. E, se calhar, é disto que Cavaco tem medo…



quinta-feira, 21 de maio de 2015

ACORDO ORTOGRÁFICO VISTO POR UM MOÇAMBICANO




Chegou ao meu conhecimento através da partilha feita pelo meu irmão Domingos.

É, sem dúvida, um dos textos mais esclarecedores da irresponsabilidade de impor normas contrárias aos autênticos interesses das populações e, fundamentalmente, da cultura dos povos. Basta ler!






«Texto postado por Del Pires, irmão do Mário Tibério.

ACORDO ORTOGRÁFICO VISTO POR UM MOÇAMBICANO.

“Eh Oena, Lhe Can,

Nós aqui em Moçambique sabemos que os mulungos de Lisboa fizeram um acordo ortográfico com aquele tocolocma do Brasil que tem nome de peixe. A minha resposta é: naila. Os mulungos não pensem que chegam aqui e buissa saguate sem milando, porque pensam que o moçambicano é bongolo. O moçambicano não é bongolo não; o moçambicano estiva xilande. Essa bula bula de acordo ortográfico é como babalaza de chope: quando a gente acorda manguana, sevai ticumzar a mamana já não tem estaleca e nem sequer sabe onde é o xitombo, e a gente arranja timaca com a nossa família.

E como pode o mufana moçambicano falar com um madala? Em português, naturalmente. A língua portuguesa é de todos, incluindo o mulato, o balabasso e os baneanes. Por exemplo: em Portugal dizem "autocarro" e está no dicionário; no Brasil falam "bus" e está no dicionário; aqui emMoçambique falamos "machimbombo" e não está no dicionário. Porquê? O moçambicano é machimba? Machimba é aquele congoaca do Sócrates que pensa que é chibante e que fuma nos tape, junto com o chiconhoca ministro da economia de Lisboa. O Sócrates não pensa, só faz tchócótchá com o th'xouco dele e aquilo que sai é só matope.

Este acordo ortográfico é canganhiça, chicuembo chanhaca! Aqui na minha terra a gente fez uma banja e decidiu que não podemos aceitar.

Bayete Moçambique!

Hambanine.”

Assina: Manuel Muanamucane»


segunda-feira, 18 de maio de 2015

PODE LÁ ESTAR A POLÍCIA…




Um amigo, depois de ver as imagens aqui mostradas, desabafava:

– Já não posso ir ao futebol com os meus netos…!

– Porquê? – Perguntei-lhe.

– Porquê, perguntas tu? …Pode lá estar a polícia…!


domingo, 17 de maio de 2015

SEGREDO DE JUSTIÇA SEPULTADO

 



JOÃO ARAÚJO * – 17.05.2015








A 22 de Abril, o juiz Dr. Carlos Alexandre e o procurador-geral-adjunto Dr. Rosário Teixeira, acompanhados de polícias diversos, iniciaram buscas de dois dias, nos escritórios do Grupo Lena. Terminada a cerimónia, um administrador do Grupo foi detido, constituído arguido, interrogado e sujeitado a prisão preventiva, logo convolada em prisão domiciliária.
De pronto, jornais - de referência e de preferência - relataram as diligências, com detalhes em tudo e em todos coincidentes: marcas e número de computadores e gigabytes apreendidos; quantidade de pastas e de papéis; suspeitas, conclusões, alusões, e até pensamentos, do Ministério Público.

Depois, as informações recolhidas, sobre contas e movimentos bancários, ilustradas com datas, quantias, gráficos, a desembocarem em nomes. E, setas corridas, sem nenhuma relação com o que constasse das contas, o nome de José Sócrates, a causa, afinal, de toda aquela agitação.

Tratava-se, dizia-se, de diligências no seguimento da resposta das autoridades suíças, formalmente recebidas em Fevereiro de 2015, a uma carta rogatória, urgente, de Novembro de 2013, do Ministério Público, mais de um ano depois do envio da carta e de ter sido comunicada, ainda em Novembro de 2013, a disponibilidade nas autoridades suíças da informação rogada. A pedido do Ministério Público, as autoridades suíças suspenderam o procedimento rogatório por mais de um ano, causando o alargamento, por vários meses, do prazo máximo de duração do inquérito, com influência sobre a planeada, já na altura e para a altura, prisão de José Sócrates.

E certo é que as informações recebidas desmentem a teoria de que o dinheiro de Carlos Santos Silva pertence a José Sócrates: depois de tanta busca, de tantas detenções, de tantos interrogatórios, de tantas apreensões, o nome dele continua teimosamente ausente, tanto quanto distante José Sócrates está dos negócios, das contas e do mais de que ali se tratava.

Por isso, chamá-lo ao assunto, como beneficiário de transacções, sem correspondência com a informação recebida, mais do que especulação, é uma falsificação grosseira, uma mentira, como são outras tantas mentiras as novas vias inventadas de cambulhada para a investigação.

Não ressaltando das notícias que a comitiva para buscas integrasse repórteres (já lá chegámos), é de concluir que aquela tanta informação, toda ela coincidente nos seus detalhes e unânime nas conclusões, foi transmitida pela investigação, por responsabilidade do senhor juiz, do senhor procurador, ou de ambos, que a ambos cabe a guarda do processo.

Ficam, assim, sepultados os restos do "segredo de justiça" (salvo para esconder de José Sócrates os inexistentes factos da sua culpa). Confortados pelos arquivamentos, por colegas deles, dos processos de violação do segredo, animados pela inércia da procuradora-geral, protegidos da censura social por uma Imprensa acrítica ou conivente e pelo geral amedrontamento, os magistrados entraram em roda livre, num exercício de vale tudo, mesmo, ou sobretudo, tirar olhos.

Entretanto, fica a saber-se que os 23 milhões que, diz o Ministério Público, o Grupo Lena gastou para obter "contratos de adjudicação" de 200 milhões, caíram para 17, sendo o Grupo Lena substituído por personagens novinhas em folha, incluindo um holandês, que ainda não tinha entrado na história.

A par de tanta novidade, só falta dizer o que José Sócrates reclama: quem o corrompeu; para quê; onde; e como. Sem esse esclarecimento, de direito e de decência, o que este foguetório não esconde é o beco sem saída da história da corrupção.

Eis ao que a Justiça chegou: uma prisão sem factos e sem provas; diligências essenciais proteladas; a busca da verdade substituída pelo alarido mediático cirurgicamente alimentado; a difamação, a calúnia, o sofisma, em lugar de imputações claras, sérias e honestas.

No princípio disto tudo, José Sócrates denunciou a hipocrisia e a indiferença daqueles a que, por cargo ou por função, o país pode exigir voz. Falta denunciar a cobardia de tantos e a pequenina ambição de alguns. E a estupidez dos que pensam que os crocodilos poupam ao jantar os que os deixaram almoçar em paz.


*Advogado



sábado, 16 de maio de 2015

PASSOS COELHO MUDOU-NOS A ALMA




«Passos ganhou a batalha ideológica[1]
 A ideia é de João Cravinho e foi avançada num debate sobre políticas públicas em tempos de troika, organizado pelo ISCTE: Passos Coelho ganhou a batalha ideológica. E ganhou- a porque não mudou só o Estado, a economia, as relações laborais: mudou-nos a alma. Hoje estamos mais descarnados, mais descrentes, mais tementes à mudança. Interiorizámos as culpas pela crise. A nossa matriz judaico-cristã leva- nos a assumir que foi o nosso pecado de luxúria consumista que nos conduziu ao pedido de ajuda internacional. E é essa mesma matriz que nos leva a aceitar que “só saímos disto empobrecendo”. Passos ganhou a batalha ideológica porque houve várias “verdades” que se tornaram oficiais, à custa de tanto serem repetidas: que vivemos acima das nossas possibilidades, que trabalhamos pouco, que não somos produtivos, que temos demasiados dias de fé rias, que temos excesso de garantias quando somos trabalhadores sem termo, que os pensionistas recebem de mais, que os funcionários públicos ganham muito para o que produzem, que a emigração é uma oportunidade, que os contratos a termo certo são melhor que nada, que licenciados a ganhar 700 ou 800 euros por mês é aceitável. Passos ganhou a batalha ideológica porque colocou velhos contra novos, empregados contra desempregados, funcionários públicos contra trabalhadores do sector privado. Toda a gente aceita hoje que é necessário reduzir mais e mais as pensões e que a devolução dos salários na Função Pública só esteja regularizada em 2019. O enorme desemprego é uma fatalidade. Poucos contestam o caminho que estamos a trilhar. Quando muito contesta-se o ritmo. O CDS e o próprio PS parecem estar reféns destas ideias. Passos só não alcançou ainda o seu último objectivo, embora o tenha forçado várias vezes: a revisão da Constituição. Mesmo assim, e apesar do Tribunal Constitucional, conseguiu que algumas das suas pretensões passassem. Que ninguém tenha dúvidas: Passos vai dar muita luta até às eleições de Outubro. E mesmo que as perca, já nos mudou a alma».




[1] Nicolau Santos – em Expresso Economia, de 16-5-2015

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990 NÃO É OBRIGATÓRIO A PARTIR DE HOJE




Não quero ser “teimoso”, mas quero lutar até que chegue alguém lúcido que derrube este ultraje – AO90.


Para já, e segundo Ivo Miguel Barroso escreve hoje no Público, temos mais uma folga de tempo para continuar a lutar contra esta aberração do pseudo-Acordo.



«O presente escrito versa sobre uma questão jurídica, que pode ser formulada do seguinte modo:

Quando se iniciou e quando terminará o chamado “prazo de transição” do “Acordo Ortográfico” de 1990 (AO90) (sendo que este último é aplicável por via da ratificação do 2.º Protocolo Modificativo, ocorrida em 29 de Julho de 2008)?

1. Um preceito do Decreto de ratificação do Presidente da República de 2008 impõe uma reserva ao Tratado do 2.º Protocolo Modificativo ao AO90, uma restrição a esse compromisso internacional, determinando um prazo de “seis anos”.

2. Esse “prazo de transição” conta-se a partir de quando?
O Governo realizou o depósito da ratificação tardiamente, em 13 de Maio de 2009. Porém, esse acto de depósito não chegou a ser publicitado atempadamente no Diário da República, como a Constituição inequivocamente exige.

A falta de publicação gera a ineficácia do acto de depósito na ordem jurídica interna (cfr. art. 119.º, n.º 2, da Constituição). Isto é, por outras palavras, o AO90, por força do 2.º Protocolo Modificativo, não entrou em vigor na ordem jurídica interna em 13 de Maio de 2009.

O aviso de tal depósito, reproduzindo o Decreto presidencial n.º 52/2008, apenas foi publicado em 17 de Setembro de 2010; isto é, volvido 1 ano, 4 meses e 4 dias após a data do depósito.

3. As questões que se colocam são as de saber:

i) A partir de que momento Portugal se encontra vinculado internacionalmente a iniciar o prazo de transição inerente ao Tratado?;

ii) A partir de que momento o prazo de transição deve começar a ser contado?

Estas duas questões não têm necessariamente a mesma resposta. O que interessa verdadeiramente saber é a partir de quando o “prazo de transição” começa a contar: i) se é com o depósito; ii) ou se é após a publicação de tal acto de depósito em Diário da República, acrescidos dos cinco dias de vacatio legis.

4. A data de vinculação ao Tratado e a da realização do depósito não têm necessariamente que ver com a data do prazo de transição, que foi previsto por uma reserva ao Tratado.

Apesar de o 2.º Protocolo Modificativo se encontrar publicado, não é de todo indiferente para os particulares que tenham conhecimento da data em que o depósito foi realizado; o que só pode ocorrer a partir da data da publicação.

Com efeito, o início de vigência do prazo de transição contende directamente com os direitos dos cidadãos portugueses, que obviamente são particulares necessariamente interessados na previsibilidade do Direito, que, frise-se, só através da publicidade pode ser alcançada.

Ora, os cidadãos só podem ter conhecimento efectivo da data do início da entrada em vigor a partir da data de publicação em Diário da República, acrescidos os cinco dias de vacatio legis. A data do depósito do Tratado não coincide, pois, com a data de início de contagem do prazo de transição, para efeitos internos. Dever-se-á, sim, recorrer às regras constitucionais relativas à publicação do Tratado, da reserva que lhe foi aposta e ao decurso do período da vacatio legis.

A data para efeitos de contagem do prazo de transição não poderá, pois, ser, pura e simplesmente, a data do depósito. Com efeito, o Estado Português não poderá invocar o “prazo de transição”, que não foi objecto de publicação, contra os cidadãos que poderiam ficar prejudicados. Não estando o depósito do 2.º Protocolo Modificativo do AO90 devidamente publicitado, pergunta-se: como é que as pessoas se iriam orientar pelo disposto no Tratado e “beneficiar” plenamente do prazo de transição de seis anos?

Assim, é forçoso concluir que o depósito do Tratado terá de ter sido publicado, para que o “prazo de transição” tenha sido iniciado.

5. Ora, se assim é, o prazo de transição não pode ser contado a partir do depósito; diferentemente da interpretação oficial do Estado.

6. Durante o “prazo de transição”, as grafias do Português europeu e as decorrentes do AO90 são legítimas, do ponto de vista do Direito positivo, sem prejuízo de ter ocorrido uma antecipação do final do “prazo de transição” em largos domínios do Estado-poder e do sistema educativo, aliás inconstitucionalmente.

7. Assim, do exposto, retiramos duas conclusões:

1.ª - O prazo de transição começou a contar a partir da entrada em vigor do 2.º Protocolo Modificativo na ordem jurídica interna, que é a contada a partir da publicação, somados os cinco dias de vacatio legis.

Portanto, o prazo de transição iniciou-se em 22 de Setembro de 2010 (e não em 3 de Agosto de 2008, cinco dias após a publicação da Resolução n.º 35/2008 no Diário da República e do Decreto presidencial n.º 52/2008, que procedeu à ratificação, em 29 de Julho de 2008; nem tão-pouco após a data do depósito, realizado em Maio de 2009; nem no início do ano de 2016, pois não perfaz a totalidade dos seis anos).

2.ª - O prazo de transição terminará somente em 22 de Setembro de 2016.

8. Destarte, há mais tempo pela frente do que a data de 13 de Maio de 2015, antes de nos depararmos com o cenário de “democracia totalitária”, verdadeiramente orwelliano, de imposição de uma “novilíngua”.

Cito a passagem: “a ortografia constante de novos actos, normas, orientações, documentos ou de bens referidos (...) ou que venham a ser objecto de revisão, reedição, reimpressão ou de qualquer outra forma de modificação, independentemente do seu suporte, deve conformar-se às disposições do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.” (art. 2.º, n.º 2, do Decreto presidencial n.º 52/2008).

8.1. As normas que se extraem deste preceito e do Anexo I do Tratado do AO90 (Bases) padecem de inconstitucionalidades totais e parciais (remetemos para um escrito que as enuncia sucintamente[1])».





[1] V. IVO MIGUEL BARROSO / FRANCISCO RODRIGUES ROCHA, Guia jurídico contra o “Acordo Ortográfico” de 1990. (...), in PÚBLICO online, pgs. 100-106.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

VOTOS… EM OUTUBRO





Grande atitude teve o PM Passos Coelho. Só uma mente esclarecida como a dele conseguiria traduzir de forma tão arguta o que lhe vai na alma. Não se limitou a fazer um simples voto de pesar pela morte de Mariano Gago… Não. Foi muito mais longe. Muito mais do que alguma vez esperei do bom senso, da razão e da boa educação. E, educado como é, reconhecendo os méritos de quem tão grande foi, não se limitou aos simples votos de pesar pela sua morte. Foi muito mais longe e patenteou a sua grande “manifestação de Apesar”.

A dimensão humana deste Primeiro-ministro foi inequivocamente demonstrada. A sua grandeza de princípios, a eloquência e a arte de transformar coisas grandes em ínfimas e de valorizar a mesquinhez levou-o a esta grande manifestação de apesar – “apesar de ter sido ministro em governos do PS”.

Pela prática demonstrada na destruição da obra que Mariano Gago ajudou a criar percebe-se, perfeitamente, as razões que assistiram à transformação do voto de pesar em manifestação de Apesar.

Destes já não espero nada. Resta-me, tão-só, a consolação de que já falta pouco tempo para os afugentarmos do nosso pesadelo – será em Outubro.



segunda-feira, 13 de abril de 2015

DESCAMINHO DA HONESTIDADE E DA HONRA





Escreve, como post sciptum, Nicolau Santos no Expresso diário, de 13 de Abril, relativamente aos “terrores” sentidos pela direita trauliteira e pelo centro-direita – à beira da orfandade –, e denunciando a postura manifestada pelos escribas do “informativo online” O Observador, face à eventual (que ainda não é certa) candidatura à Presidência da República de Sampaio da Nóvoa:

“O Observador começa agora a confirmar em toda a sua plenitude ao que veio: baralhar em defesa do centro-direita nas legislativas de 2015 e nas presidenciais de 2016. E se perder as duas batalhas? Os privados continuarão interessados em investir a fundo perdido no site? Exemplo de O Independente não é bom augúrio…”

Julgo que os investidores começarão a pensar se valerá a pena pagar àqueles que tão bem chafurdam na lama sem conseguirem qualquer resultado – nem sequer para a transformar em estrume…

A sanha irracional contra Sampaio da Nóvoa tem sido de uma acutilância incoerente, o que define de forma eloquente as inconfessáveis intenções destes mercenários maldizentes da informação.

Uns forjam currículos académicos para irem para a política (e a direita aplaude-os, pois sabem que todos os meios servem para atingir os seus objectivos), outros são desconsiderados por terem currículos autênticos de elevado e reconhecido mérito, mesmo tendo atingido o reconhecimento máximo dos seus pares – reitor da Universidade.
Cada vez encontro mais dificuldade em explicar e exemplificar aos meus netos o sentido autêntico das palavras honestidade e honra. Muito menos consigo convencê-los que muita gente houve que chegou a dar a vida pela defesa destes dois princípios éticos da nossa sociedade.



VAMOS FAZER ESTÁGIOS ATÉ SERMOS VELHINHOS?




“Seis em cada dez trabalhos criados em Portugal são estágios. Neste mês, arrancam as candidaturas ao Reactivar, programa de estágios para maiores de 30. Precários Inflexíveis juntaram-se no sábado para organizar uma “resposta a este abuso”

Mariana Correia Pinto, no Público de 13 de Janeiro de 2015

O estágio profissional de 12 meses está prestes a terminar e Joana já sabe que não vai continuar na empresa. Os zunzuns de uma possível proposta apontam para um salário igual ou inferior ao que recebe actualmente (cerca de 690 euros brutos por mês) e não está disposta a aceitar mais essa exploração. No currículo já tem um estágio curricular não remunerado de nove meses, obrigatório para terminar o mestrado em Psicologia, e quatro meses e meio de trabalho gratuito na empresa onde está agora a terminar o estágio profissional – período em que esteve à espera da aprovação do estágio por parte do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP). Para ser aceite na Ordem dos Psicólogos, terá ainda de fazer mais um estágio profissional de um ano.

A vida de estágio em estágio de Joana (nome fictício) é semelhante à de milhares de portugueses que vêem nesta modalidade a única opção de entrada no mercado de trabalho. Segundo dados do Banco de Portugal divulgados no final de 2014, seis em cada dez postos de trabalho criados no país correspondem a estágios. No sábado, os Precários Inflexíveis juntaram-se para delinear um “caderno reivindicativo” e organizar uma campanha de luta contra esta realidade.

Maria Manuel também lá esteve. Acha urgente que se fale sobre o assunto e que se mudem mentalidades: “As empresas tentam normalizar o assunto e apresentar o estágio como uma grande oportunidade e um privilégio que dão às pessoas. Mas estamos a falar de uma forma de exploração e precarização utilizada para suprimir postos de trabalho.”

A designer de comunicação sentiu-o na pele. Em 2010, embarcou num workshop de Verão de três meses promovido pelo grupo Menina Design. Eram 30 pessoas e seis seriam seleccionadas para um estágio profissional no fim. Maria passou à fase dois. Mas a aprovação do estágio pelo IEFP tardava e decidiu que não queria trabalhar de graça. Comunicou-o à empresa e foi aguardar o início do estágio para casa. Meses depois, quando as verbas do Estado foram desbloqueadas, a empresa informou-a de que já não estava interessada nela: “Disseram-me que a minha paixão pela empresa não era suficiente, já que todos tinham continuado a trabalhar menos eu.”

A empresa de design por onde Maria Manuel passou esteve recentemente na ribalta por ter sido a presença portuguesa no filme Cinquenta Sombras de Grey. Mas é também uma figura assídua em plataformas de denúncia de precariedade laboral como os Precários Inflexíveis ou o Ganhem Vergonha, que lançou uma campanha de crowdfunding para editar um livro com denúncias como essa. “Fazendo-se valer da visibilidade internacional”, o Menina Design Group tem “muita gente a trabalhar de graça”, acusa Maria Manuel. “As pessoas ficam iludidas à espera de que alguma magia aconteça.” O workshop gratuito em que a designer de 30 anos participou em 2010 não foi um evento único.

Oportunidade de aprendizagem? “Não”, responde categoricamente. Durante o workshop, contou ao P3, os jovens designers já produzem peças comercializadas e mesmo quem não é seleccionado para o estágio profissional é convidado a “continuar a aparecer” na empresa.

“Têm ali um conjunto de malta a trabalhar de graça, tanto em produção de mobiliário para as marcas próprias como na produção de serviços vendidos a outras marcas.” O P3 contactou a Menina Design, mas até à hora de publicação deste artigo não obteve qualquer resposta.

É do design, arquitectura, psicologia e algumas áreas humanísticas que continua a chegar o maior número de queixas. Mas o “abuso inaceitável” da figura do estagiário é “cada vez maior e abrange cada vez mais áreas”, alerta Adriano Campos, dos Precários Inflexíveis. “Temos encontrado ofertas de estágio para operadores de telemarketing ou vendedores em lojas de roupa. É um absurdo.”

Os estagiários, recordam os Precários Inflexíveis, têm exigências de um posto de trabalho normal, cumprem um horário, não têm férias, se fizerem estágios de nove meses não têm direito a subsídio de desemprego no fim. E sofrem ainda uma “desconsideração”, sendo sempre colocados num segundo escalão, assumindo frequentemente tarefas que não são a sua função. “O estágio é claramente uma forma de nivelar por baixo a entrada no mercado de trabalho”, lamenta Adriano Campos.

“Mural da vergonha”

Também no sábado foi inaugurado no Porto (Galeria Geraldes da Silva) um “mural da vergonha”, onde todos podem colocar propostas absurdas de emprego e estágios (“como a da Danone, que dava paletes de iogurte em troca de emprego, ou as de empresas que pedem experiência profissional, domínio de três línguas e 12 horas de trabalho diário e oferecem um salário mínimo”, exemplifica Adriano) e pode assistir-se à peça de teatro-fórum M.E.T.2., uma produção conjunta do Núcleo de Teatro do Oprimido de Braga e da Associação Tartaruga Falante, que aborda as questões da precariedade, estágios e direitos laborais e apresenta uma crítica ao discurso do empreendedorismo. As iniciativas fazem parte do evento SOS Estagiário, organizado pelos Precários Inflexíveis, para se ouvir relatos de estagiários (qualquer pessoa pode aparecer), desenhar-se um “caderno reivindicativo” e pensar numa “forte campanha” que estará depois nas ruas e que será levada à Assembleia da República em formato de petição.

Algumas das exigências a incluir estavam já bem delineadas na cabeça dos activistas: maior fiscalização dos estágios por parte da Autoridade para as Condições do Trabalho, limitação do acesso a estágios por parte das empresas (com a obrigatoriedade de contratação de um em cada dois estagiários), alargamento dos estágios de nove para 12 meses (dando às pessoas a garantia de que têm, pelo menos, acesso ao subsídio de desemprego no fim do contrato), garantia de respostas mais céleres do IEFP aos processos e novas soluções para quem é obrigado a fazer estágios para entrar nas respectivas ordens (como a dos Arquitectos, Advogados ou Psicólogos, por exemplo).

Recentemente, uma proposta de “summercamp em plena Primavera” publicada no Facebook pela empresa de arquitectura Polígono gerou uma onda de indignação nas redes sociais, onde se fala de “escravatura contemporânea”. André Pereira revelou num blogue uma troca de emails com a empresa, que lhe propunha uma remuneração de 500 euros por dois meses por um “trabalho rijo e intenso fisicamente”, mas que “seguramente terá imensa visibilidade e repercussão”.

“É preciso contrariar esta ideia de que as empresas fazem um favor aos trabalhadores por lhes darem um estágio. A sociedade precisa destas pessoas e ser integrado é um direito”, sublinha Adriano Campos. As perspectivas de uma reviravolta desta “lógica instalada” não são, no entanto, animadoras. O Governo publicou no dia 20 de Março no Diário da República o Reactivar, programa de estágios de seis meses destinados a maiores de 30 anos inscritos em centros de emprego há mais de um ano. “É uma extensão da austeridade. Este Governo especializou-se em ocupar os desempregados com estágios e cursos, e desde que assumiu funções fez com que se perdessem milhares de postos de trabalho.”

A empresa onde Maria Manuel está há dois anos com um contrato a tempo indeterminado mudou o foco e vai deixar de precisar de uma designer. Em breve estará desempregada. Tal como Joana. O futuro? Provavelmente passa por emigrar, lamenta Maria Manuel: “Emocionalmente custa-me, mas em Portugal ou se é empreendedor ou se salta de estágio em estágio. Vamos fazer estágios até sermos velhinhos? Não é solução.”





quinta-feira, 2 de abril de 2015

A MAQUILHAGEM DOS DADOS DO DESEMPREGO


DESEMPREGO – Um estudo eleva de 13% oficial para os 29%

Não foram os nossos jornais; foi o jornal el Mundo que publicou no dia 27, do passado mês de Março, o seguinte texto:

¿Está maquillando Portugal sus datos de desempleo?



El primer ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho.REUTERS
VIRGINIA LÓPEZ Especial para EL MUNDO Lisboa
Actualizado: 27/03/2015 20:07 horas

No princípio deste mês, o Eurostat revelava que Portugal era o terceiro país que mais havia reduzido a taxa de desemprego, até el 13,3%, em Janeiro passado. Contudo, um estudo divulgado hoje pelo Observatório de Crisis y Alternativas de la Universidade de Coimbra revela que estes números oficiais podem estar muito abaixo dos números reais.

Segundo este estudo, a taxa real de desemprego em Portugal estaria nos 29%. Ou seja, que nas estatísticas não entram todas as pessoas que na realidade não têm emprego em Portugal.

Além de mais, o estudo também é muito crítico com "la criação de empregos registados recentemente", na óptica do governo liderado pelo primeiro-ministro social-democrata Pedro Passos Coelho. O Observatório entende que esta recuperação de emprego assenta em "bases frágeis". "O desemprego actual é um desemprego mais desprotegido do que antes do programa de ajustamento", e o "emprego gerado em Portugal é baseado sobre todas as actividades precárias e bolsas mal remuneradas, sem perspectiva de continuidade ou de verdadeira reinserção no mercado de trabalho".

Em Portugal, o salário mínimo situa-se, desde Janeiro deste ano, em € 505,00, depois de estar vários anos congelado nos € 485,00. Além disto, existe mais de um milhão de trabalhadores “contratados” a falsos recibos verdes. Ao dizerem que são autónomos, é dizer que pagam por si só a sua própria segurança social e impostos do trabalho, quando na realidade deveriam estar contratados pelas empresas onde trabalham todos os dias. Mas estas empresas não os contratam, apesar de saberem que é ilegal e que poderiam pagar avultadas multas no caso de serem denunciadas. Porém, qual é o trabalhador precário que se atreve a denunciar, sabendo que não tem garantias de não perder o seu posto de trabalho, ainda que seja precário?

Por outro lado, existem as bolsas profissionais, pagas a “meias” entre o Estado e o privado, que em teoria serviriam para dar acesso ao mercado laboral aos jovens licenciados. Na prática, como denuncia o Observatório, estas bolsas são uma maneira de sair mais baratas as contratações pelo empresário, que posteriormente não renova o contracto com o trabalhador, uma vez terminada a bolsa estatal.

Segundo os dados do Instituto Nacional de Estadística (INE), desde 2011, ano em que Portugal foi resgatado, até ao segundo semestre de 2013, destruíram-se mais de 460.000 postos de trabalho e apenas se recuperaram cerca de 38 mil.

sábado, 28 de março de 2015

A PERMANENTE VIL MENTIRA




Há muito que não escrevo um postal. Vários são os factores que contribuíram para esta ausência da blogosfera; mas, o motivo principal é porque me sinto qual personagem do Pe. António Vieira no sermão de Santo António aos peixes – eles não ouvem, nem têm consciência daquilo que os rodeia. De que vale a continuar a apregoar erros, alertar para irregularidades, criticar a desfaçatez e a irresponsabilidade. Tal como os peixes e outros animais quaisquer são inimputáveis; têm uma missão a cumprir, somente não sabem qual; cumprem ordens (ou desígnios), mas não sabem quem lhas ordena. Cumprem uma missão, mas não é aquela para a qual foram eleitos; governam a rogo – mas, não do povo.

A quem obedecem?

Durante toda a minha vida ouvi (e, assim, fui educado) que a responsabilidade é solidária; quanto mais alto se estiver na hierarquia da cadeia de comando, maior é a responsabilidade. Também me ensinaram que é necessário (imprescindível, até) estarmos bem esclarecidos para podermos – honesta, responsavelmente e em consciência – emitir uma opinião ou deliberar sobre qualquer assunto.

E o que vemos?

Vemos a Ministra de Estado e das Finanças a desresponsabilizar-se pela sua incapacidade de cumprir e fazer cumprir as obrigações para as quais foi nomeada. Pelo contrário, enjeita qualquer sentimento de responsabilidade e imputa-o aos seus subordinados.

Por outro lado, vemos (já não falo do Citius, nem das alarvidades produzidas mais para trás) a Ministra da Justiça a manipular dados sobre a pedofilia para levar o Conselho de Ministros a decidir sobre uma lei que, no mínimo, deveria ser cautelosa e sobejamente estudada. Para quê tanto trabalho em viciar e quantificar dados na informação prestada ao Conselho? Bastaria levá-la ao parlamento, informar a maioria de qual a intenção de voto e aguardar pela decisão. Esta maioria tem-nos demonstrado que está ali para cumprir as vontades transmitidas pela “Voz do Dono” e não, como a Constituição o impõe, para fiscalizar os actos do Governo.

Como escrevi, hoje, a um amigo (à laia de brincadeira), o PM teria ido ao Japão para aprender a palavra “Saionara”.

Mas, o meu espírito de imediato se ensombrou: e se estes indivíduos (habituados, como estão, ás confusões e à manipulação das intenções) em vez de "saionara" aprendem uma outra expressão bem portuguesa – até sempre. Isto, sim, seria grave. Era como “morrer à beira da praia”. Era fazer ressurgir o passado que terminou (julgava eu) em Abril de 1974.

Já falta pouco par as eleições… Será no final do Verão que eles saem… (?)

Mas está a custar tanto…!


segunda-feira, 2 de março de 2015

QUEM NOS GOVERNA



Em Junho de 2014, milhares de cidadãos portugueses receberam notificações da Segurança Social com aviso de pagamento de dívidas, sob a ameaça de penhora. Os devedores tinham um mês para pagar o que deviam, fosse muito ou pouco.

E ainda, segundo Sérgio Lavos, no 365 Forte, “os funcionários da Segurança Social tinham recebido uma ordem directa do ministério para cada posto de atendimento fazer um apanhado das dívidas, um apanhado feito em bruto sem ter em conta condicionantes como pedidos de isenção. Funcionários em todos os centros do país andaram a fazer horas extraordinárias, durante dias seguidos, para conseguirem notificar os devedores até ao final de Junho – aparentemente, havia um problema de liquidez urgente na Segurança Social e uns números para compor nas estatísticas do Governo. A pressa era muita. Tanta que até devedores cuja dívida tinha prescrito foram notificados”.

«O ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social considerou hoje que o primeiro-ministro foi "vítima de erros da própria administração", à semelhança de milhares de portugueses, referindo-se à anterior dívida de Passos Coelho à Segurança Social».

Marcelo Rebelo de Sousa – insuspeito – pergunta “Como é que se paga voluntariamente uma dívida prescrita?”

E acrescenta: “Não percebo. Não percebo nada. Primeiro ponto que não percebo: entre 2004 e 2009, Passos Coelho, como qualquer trabalhador independente, tinha de se registar e tinha de pagar à Segurança Social. Não é preciso nenhuma notificação", no habitual comentário na TVI”.

E eu pergunto: Que governo é este…?



domingo, 22 de fevereiro de 2015

CAMUFLAR A MENTIRA




Como diz Francisco Seixas da Costa, no “duas ou três coisas”: «o destino político da senhora ministra [das Finanças – Maria Luís Albuquerque] estará, daqui a meses, na mão dos portugueses. E esses, a seu tempo, dirão de sua justiça. Só que, até lá, a senhora ministra não tem um mandato que lhe permita, ainda que temporalmente, conspurcar fora de portas o nome do país honrado em que exerce funções. Alguém deveria conseguir explicar à senhora ministra que o espectáculo a que se prestou ao lado do seu colega alemão foi de uma indignidade, quase sem par, na representação externa do Estado. Deixar-se utilizar como instrumento comparativo por parte de Berlim na sua cruzada de isolamento da Grécia configurou uma das mais tristes figuras que alguma vez vi fazer a um governante português na ordem externa – e, podem crer!, já vi bastantes e bem lamentáveis. E prolongar essa atitude no Eurogrupo, para entrar no "quadro de honra" com que Berlim premeia os "alunos" bem comportados, ajudando cobardemente à humilhação de um país também amigo e aliado, provocou um incómodo muito raro no país, ao que se diz até nas hostes da maioria. Este governo – e meço as palavras – consegue, dia após dia, surpreender-nos na sua capacidade de rebaixar a dignidade do Estado que circunstancialmente titula».

Ou, como ela própria afirma: “Não sugeri a alteração de uma única vírgula”… Expresso.

Ninguém, que eu saiba, acusou Maria Luís Albuquerque de sugerir alteração de vírgulas. Não é a alteração simples do texto que está em causa. É, de entre outras coisas, o facto de bastante antes da conferência de imprensa dada por Yanis Varoufakis (que teve início pelas 20:45, hora de Lisboa), já a SKAY TV grega ter referido as pressões exercidas pelos ministros das Finanças espanhol e português durante a reunião do Eurogrupo (citada em The Guardian, às 19:31). E é a própria imprensa alemã a noticiar que MLA terá discutido a questão previamente com Schäuble.

Deveras, MLA disse (ou terá dito) a verdade – não sugeriu a alteração de uma única vírgula. Pois não… Limitou-se a rebaixar a dignidade do Estado que circunstancialmente titula. Não mentiu, camuflou a verdade. Com a verdade, tenta (ainda, apesar do descrédito) enganar-nos.

Situações deste género, confrontadas com as do Primeiro-ministro, do Vice-primeiro-ministro, do Ministro dos Negócios Estrangeiros, do Ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, sobre o “problema grego” indiciam uma permanente manipulação da verdade e a tentativa de ridicularizar-nos cada vez mais.

Resta-nos a consolação de nos estarmos a aproximar do fim deste pesadelo. Espero que até ao princípio do próximo ano Portugal recuperemos a sua dignidade.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

SE AGRADA AOS PODEROSOS É BOM




O governo português, principalmente através do seu primeiro-ministro, insiste em colar-se aos poderosos (principalmente se estes têm carácter de dominadores); não o faz para se afirmar como um par entre iguais, mas tão só para ser notado na relação que tem para com eles – servi-los.

O PM-PPC tem-se oposto, de uma forma quase histérica, á hipótese de renegociação da dívida grega. Entende ser uma questão de princípios, de que ele é o eminente guardião… Mais, afirma que o negociado tem de ser cumprido, custe o que custar…

Não quero continuar a caracterizar o Sr. PM, já sobejamente conhecido pelos seus “ditos aleatórios”. Contudo, não posso deixar de questionar uma contradição tão evidente e imediata (nem sequer dá tempo para pensar…):

- Colher autorização dos seus parceiros negociais para antecipar o pagamento de dívida não é negociar…?

Quando se pretende adiar o pagamento da dívida é “negócio inadmissível”…! Se, pelo contrário, se deseja não pagar tanto (em juros) pela dívida contraída, colhendo autorização para antecipar o pagamento, então é um “bom comportamento” e já não se chama renegociação.

Em suma, se está em linha com um parceiro (par entre iguais) poderoso – pode fazê-lo. Se, pelo contrário (embora continue a ser um par entre iguais), está em oposição ao parceiro poderoso – é-lhe impedido.

Começo a estar farto dos burocratas da Europa, muitos deles impreparados para desempenharem as funções em que foram investidos. E não sou o único:

Um grupo de 300 economistas de instituições como Cambridge, Columbia, a Universidade Complutense (Madrid) ou a Escola Superior de Estudos Sociais (Paris) assinou um manifesto contundente contra as políticas e as soluções empregues pela UE na Grécia. O documento, baptizado “Estamos com a Grécia e com a Europa”, começa com um apelo às autoridades europeias que negoceiem com “boa-fé” com aquele estado-membro e a “respeitar a decisão do povo grego de escolher outra via” para solucionar a crise da dívida do país.

O manifesto dá razão ao governo grego, pode ler-se, “porque as políticas europeias aplicadas até agora são um fiasco total e não trouxeram nem recuperação económica, nem estabilidade financeira, nem empregos, nem sequer investimento estrangeiro directo”, contrariando, por isso, todas as medidas dos pacotes de auxílio.

Longe vai o tempo em que se tentou construir uma Europa Unida…!


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

ESPARTA NÃO SE RENDEU A XERXES. E NÃO SE RENDERÁ A BERLIM


Não posso deixar de transcrever:


“O leitor lembra-se da primeira viagem que François Hollande fez após tomar posse? E qual foi a primeira viagem que Passos Coelho fez depois de tomar posse (embora antes já tivesse feito algumas para o mesmo destino)? Pois, foram as duas a Berlim para colocar a chanceler Angela Merkel a par dos seus planos. E ainda se lembram do ex-ministro português das Finanças, Vítor Gaspar, a pedir delicadamente ajuda ao seu homólogo alemão, Wolfgang Schauble, com este a dizer-lhe displicentemente que depois de haver resultados se veria? Pois, os gregos não fizeram nada disso e vieram lembrar-nos que a ordem natural das coisas na Europa é outra.

O poder na União Europeia está hoje em Berlim. Melhor: está em Angela Merkel e Wolfgang Schauble e, depois deles, em todas as suas correias de transmissão, desde primeiros-ministros e governos submissos, a economistas, universitários, analistas e comentadores, cada qual mais fundamentalista que o anterior. Ora o primeiro-ministro e o ministro das Finanças gregos, Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis, fizeram algo tão simples como colocar no topo dos seus interlocutores europeus o Parlamento, a Comissão e os Estados membros sem discriminação. É algo tão natural que ninguém se devia surpreender. Mas como nos últimos anos os líderes fracos que governam a Europa (e o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, que ocupou o cargo durante uma década) deixaram que o eixo do poder se movesse para a Alemanha sem qualquer oposição, a decisão grega surge quase como uma afronta à ordem estabelecida.

Mas não. A ordem que existia até agora é que não é normal. A Europa foi construída como base na solidariedade e a igualdade entre os Estados membros e não como uma organização em que manda um e todos os outros obedecem. E por isso todos nós, europeus, temos de agradecer a Tsipras e a Varoufakis por estarem a devolver aos europeus o orgulho de pertencerem ao clube mais solidário e democrático do mundo.

A Europa dos falcões pode derrotar os gregos. Mas não sairá ilesa deste combate Temos de lhes agradecer igualmente que nos estejam a mostrar que há mais que um caminho para combater a crise e que não é possível continuar a insistir na austeridade, com os péssimos resultados sociais, económicos e em matéria de dívida externa que estão à vista de todos. Temos de lhes agradecer também que recusem receber ordens de estruturas não sufragadas eleitoralmente, como o Eurogrupo. E que recusem ainda mais ordens enviadas por e-mail.

Temos de lhes agradecer que se reúnam com ministros das Finanças dos países da zona euro e não tenham receio em discordar publicamente deles no final dos encontros. Temos de lhes agradecer que obriguem Wolfgang Schauble a dizer no final do encontro que «concordámos em discordar». Temos de lhes agradecer que não andem a negociar de mão estendida e de cerviz curvada. Temos de lhes agradecer que nos lembrem o que é a dignidade de um povo e o seu direito a escolher o seu destino e a ser respeitado por isso”.

Nicolau Santos (Jornal Expresso Sexta, 6 de Fevereiro de 2015)


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O À VONTADE DO SAUDOSO “CULTO DO CHEFE”?

  


Acabo de ouvir o ministro da Economia  comparar – no Parlamento – a privatização da TAP com o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a adopção por casais homossexuais. É demais! Incrível!



Pires de Lima confunde direitos humanos com negócios. Mas, atenção, não o fez num bar, sentado em frente de um copo de whisky (ou vários), rodeado de fiéis seguidores – aduladores da personificação do disparate que confundem ideologia e subserviência com os ideários alemães do passado. Não, não foi num bar, num café, numa tasca… Foi na casa da democracia – o Parlamento. Ou deverei considerar que a escolha do local para dizer tamanha aleivosia foi mesmo uma mal-intencionada provocação.

Quando se compara o terror sofrido por um povo a “histórias de crianças”, e essa comparação vem do insigne chefe do seu governo (insigne, neste caso, quero considerar como se fosse o radical de insignificante), admito que essa gente possa confundir o local de excelência que deveria ser o Parlamento, com qualquer local de lazer ou de… convívio…

Será que, passados quarenta anos de esperançosa utopia, tenhamos que ter de voltar a uma vivência idêntica à dos anteriores quarenta e oito anos…?