domingo, 13 de outubro de 2013

O PERDOADO QUE NÃO PERDOA


Europa 1939 a 1941

“1. Vai faltando paciência para tanta conversa sobre a situação de Portugal antes, durante e depois da troika. Conversas de avaliações e mais avaliações, de segundo resgate ou não, de programas cautelares, de ajustamentos e desajustamentos, de renegociação da dívida, de pedido de mais tempo, de ameaças com os nossos misteriosos credores, de promessas de regresso aos mercados, de recessão com ou sem espiral e com medições fantasiosas dos défices na elaboração dos orçamentos que não são para entender, mas para sofrer.
Conversas sobre a dívida pública, em crescimento, acompanhada de austeridade e mais austeridade, de cortes e mais cortes nas magrezas das pensões da gente que não é rica, com a máquina de fazer desempregados, de tornar os pobres mais pobres e os remediados sem remédio.
Conversas nos jornais, nas rádios e televisões sobre aumento da emigração e diminuição do acesso ao ensino superior, sobre a impossível renovação etária e a solidariedade entre gerações, os idosos estarão a mais e as crianças não serão a esperança.
O recurso ao vocabulário psicanalíticode masoquistas a sádicos – para classificar o comportamento dos portugueses sobre a sustentabilidade ou insustentabilidade da dívida tornou a conversa fiada numa troca de insultos. A Constituição da República e o Tribunal Constitucional surgem como cartas fora do baralho.

2. Na área cultural, de predominância judeo-cristã, vale a pena retomar a questão do Jubileu, sem catálogos de “indulgências” e tendo diante dos olhos a escandalosa distância entre ricos e pobres. Algumas organizações retomaram a problemática do “perdão da dívida” do Terceiro Mundo, inspiradas na tradição do Antigo Testamento (AT), do Ano Sabático e do Ano Jubilar.
Não pretendo sugerir, e muito menos provar, seja o que for, a partir da Bíblia. Não é um livro, mas a biblioteca-base, ou de referência, de judeus e cristãos, com algumas marcas no Islão, escrita ao longo de séculos e composta de muitos géneros literários que exigem vários métodos de leitura e de interpretação. Não é um ditado divino, mas um conjunto de testemunhos da intervenção de Deus, se acolhidos na fé, quanto à sua intencionalidade essencial.
No AT, sobretudo em algumas correntes da teologia da prosperidade, a riqueza é valorizada como uma bênção divina. A saga dos patriarcas bíblicos mostra que uma grande família, abundância de rebanhos, ricas colheitas e uma vida longa valem como assinatura da bondade de Deus. O contrário é sinal de castigo. Ser rico é um sinal da graça; ser pobre é uma vergonha, uma miséria.
Acontece, porém, que a desigualdade na repartição da riqueza levanta problemas. Ver ricos ao lado de pobres, no seio daquele que se considerava o povo de Deus, era um escândalo, feria a ordem divina: “Não deve haver pobres entre vós”. Mas havia. Perante esta situação inaceitável, para não carregar mais, mas abrir o futuro, surgiu uma legislação audaciosa, expressa no Ano Sabático, de sete em sete anos, e no Ano Jubilar, de 49 em 49, destinados ao repouso da terra, ao perdão das dívidas e à libertação dos escravos (Lev. 25; Êx. 23; Deut. 15).
A lição é clara: só uma redistribuição periódica dos bens permite abater a espiral infernal da pauperização.

3. Servindo-se do profeta Isaías, Jesus apresentou o seu programa, na Sinagoga de Nazaré, como um grande Jubileu: proclamar um Ano da Graça do Senhor (Lc, 4,16-22). Entre as muitas parábolas acerca do perdão de dívidas, S. Mateus (18,23-35) fez um retrato espantoso da nossa situação europeia: o perdoado de uma enorme dívida estrangulou um pobre devedor.
Vamos ao texto.
O Reino do Céu é comparável a um rei que quis ajustar contas com os seus servos. Um deles devia-lhe dez mil talentos. Não tendo com que pagar, o senhor ordenou que fosse vendido com a mulher, os fi lhos e todos os seus bens, a fi m de pagar o que devia. O servo lançou-se, então, aos seus pés, dizendo: “Concede-me um prazo e tudo te pagarei.” Levado pela compaixão, o senhor daquele servo mandou-o em liberdade e perdoou-lhe a dívida. Ao sair, esse servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, apertou-lhe o pescoço dizendo: “Paga o que me deves!” O seu companheiro caiu-lhe aos pés, suplicando: “Concede-me um prazo que eu te pagarei.” Mas ele não concordou e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto lhe devia. Ao verem o que tinha acontecido, os outros companheiros foram contar o sucedido ao senhor. Este mandou-o chamar e disse-lhe: “Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque assim me suplicaste; não devias também ter piedade do teu companheiro, como eu tive de ti?”
Seria um anacronismo não ter em conta a distância social, económica e cultural entre a sociedade em que Jesus viveu e a nossa, mas esta parábola exprime a atitude que gostaríamos de ver nos que, há 60 anos, foram perdoados de uma dívida colossal e hoje procuram humilhar as vítimas, não só dos seus erros, mas de uma situação internacional que não provocaram.
Frei Bento Domingues O.P. – PÚBLICO, DOM 13 OUT 2013 (pág. 51)
(Realces a negrito da nossa responsabilidade)

1 comentário:

Antonio Cristovao disse...

Ao compararmos o bem estar em paises da UE comparando com qualquer país do mundo ficamos a perceber que muitos destes povos tiveram que receber mais do que produziram para estar como estão.Talvez se tenham passado anos sabaticos ou até jubilares para que se possa perceber os factos reais.
Apesar do valor intelectual tentar explicar a realidade com "primados" de milenios atras nao me entusiasma, melhor explica muita miseria moaralainda latente em muitas civilizções (felizmente com excepção da UE)